'Penso em encerrar a carreira no Vasco', diz Helton

Goleiro do Porto fala em entrevista exclusiva ao LANCENET!

Joana Bueno,
Leonardo Pereira e
Raphael Martins
- 03/04/2011 - 09:21 Porto (Portugal)

Helton, goleiro do Porto (Foto: Reuters)

Helton está próximo de tornar-se um cidadão português. Em conversa com o LANCENET!, o goleiro do Porto deixou escapar palavras típicas da terra de Luiz de Camões como "mister" (treinador) e "adeptos" (torcedores). Há oitos anos no país onde foi escrito “Os Lusíadas”, ele tem razões de sobra para se orgulhar da temporada 2010-2011: apenas sete gols sofridos em todo Campeonato Português e uma campanha cujo aproveitamento é de impressionantes 94%.

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O título, que pode ser conquistado hoje, em pleno Estádio da Luz, casa do maior rival Benfica, seria apenas mais um detalhe na trajetória vitoriosa desse cidadão luso-niteroiense.

Talvez, o Vasco, clube que revelou o camisa 1 para o futebol, seja um dos poucos motivos que podem fazê-lo deixar a Terrinha.

Confira a entrevista com o ídolo do Porto. Antes de atender a reportagem do LANCENET!, o goleiro desfrutava do seu maior hobby: a música.

– Estava em estúdio. Pedi para o diretor-executivo da gravadora ficar atento à ligação de vocês – respondeu o simpático “guardaredes”.

Raphael Martins: Como está sendo esta semana tão decisiva para o Porto?

Helton: É óbvio que dá um frio na barriga e uma ansiedade. Mas temos de ter os pés no chão, jogar nosso futebol e manter a tranquilidade

Joana Bueno: E como está a preparação para enfrentar o Spartak de Moscou pela Liga Europa? 

H.: Ainda não estamos pensando em Liga Europa. Só vamos mudar o chip depois de domingo. O jogo contra o Benfica é a prioridade.

Leonardo Pereira: Entre os títulos conquistados pelo Porto, este seria o mais especial, por ser na casa do maior rival?

H.: Não é todo dia que aparece uma oportunidade como essa. Todas as conquistas são especiais, mas especial mesmo é estar ao lado de quem você gosta. Nada melhor do que comemorar com os adeptos em nosso estádio e pelas ruas da cidade. Muitos não irão a Lisboa por conta da violência. Mas vamos fazer o que está traçado e depois ver como comemorar.

L.P.: O Porto tem 94% de aproveitamento no Português. Ainda não foi derrotado e, em 24 partidas, venceu 22. Se o time disputasse o Espanhol, Italiano ou a Liga dos Campeões, chegaria tão longe?

H.: São jogos diferentes. No futebol não existe uma resposta certa. E dentro das competições que o Porto disputa, aproveita ao máximo.

J.B.: Este é o melhor Porto em que você já atuou?

H.: Ainda não. Até agora não temos títulos. Em outros grupos, já consegui levantar taças.

R.M.: André Villas-Boas, técnico do Porto, é apontado pela imprensa portuguesa como o novo José Mourinho. Vê alguma semelhança?

H.: Villas-Boas teve a oportunidade de trabalhar com o "mister" Mourinho. Ele foi contestado quando chegou. Diziam que não tinha histórico ou experiência, mas mostrou o seu valor e qualidade.

R.M.: Com sua experiência, você já chegou à condição de um auxiliartécnico de Villas-Boas em campo?

H.: Para falar a verdade, conversamos pouco sobre futebol. Na maioria das vezes, o assunto é carro (risos). Gosto dos mais altos, ele prefere modelos mais baixos e rápidos (risos). Antes de ser profissional, procuro ser amigo e ganhar a confiança das pessoas com quem trabalho.

R.M.: Liedson, ao sair do Sporting teve grande festa de despedida e chegou a chorar. Você imagina uma volta ao Brasil? Ou a relação com o Porto faria você encerrar a carreira pelo clube português?

H.: Olha, sou grato à torcida do Vasco e sempre pensei encerrar minha carreira no clube onde fui projetado para o futebol e passei ótimos momentos.

L.P.: Quando você deixou o Brasil, pensava que fosse ficar oitos anos em Portugal? Quis retornar?

H.: Para ser sincero, não esperava ficar tanto tempo. Saí do Vasco e fui para um clube médio (Leiría). Não pensava que fosse jogar em clube grande. Mas a oportunidade surgiu e pensei: "Opa, vem coisa boa". Acertei com o Porto e tive a chance de crescer um pouco mais.

L.P.: Você levou sete gols na temporada. Um feito. Acredita que, para um goleiro, é mais difícil ser reconhecido por uma marca tão importante? Se fosse atacante, como o Hulk, teria mais notoriedade?

H.: Pior do que goleiro só árbitro (risos). Nunca estou satisfeito. Sempre procuro melhorar aquilo que tenho feito para não ficar limitado a uma marca ou a números.

L.P.: Aos 32 anos, você ainda se imagina jogando em um grande centro como Espanha, Itália ou Inglaterra?

H.: Todo jogador tem o objetivo de almejar algo melhor.

L.P.: Como é o assédio dos fãs. Consegue caminhar pelo Porto?

H.: É legal ser tratado bem e abordado por quem gosta do seu trabalho, sobretudo por uma criança. Quando você olha nos olhos dela, cheio de sinceridade ao pedir autógrafo ou desejar boa sorte. Realmente, não tem preço. É gratificante.

L.P.: Como você analisa os últimos goleiros convocados por Mano Menezes? Há lugar para o Helton?

H.: Julio Cesar é meu amigo particular. Sempre falei bem do Jefferson. Victor demonstrou ser uma pessoa correta e profissional. No meu caso, continuo trabalhando e aguardando uma nova oportunidade. Se ela vier, ótimo. Quando se fala de futebol, a Seleção é o patamar máximo.

J.B.: Além dos goleiros da Seleção, algum outro na Europa ou no Brasil tem lhe chamado a atenção?

H.: Confesso que acompanho pouco futebol. Passo a maior parte do tempo livre no estúdio, compondo e aprendendo música. Mas tenho escutado que o Gomes vem bem.

J.B.: Antes, poucos goleiros brasileiros atuavam na Europa. Dida foi um dos primeiros a conquistar espaço. Depois, veio a sua geração.
Você acredita que o Velho Continente mudou a perspectiva sobre o goleiro brasileiro?

H.: Espero que sim. Os pioneiros foram Taffarel e Dida. Da nossa geração, eu e o Julio fomos os primeiros.Contribuímos com essa abertura.
Fico grato pelo reconhecimento.

L.P.: Por falar em goleiro, o gol 100 de Rogério Ceni teve repercussão em Portugal?

H.: Muita. Inclusive, aproveitando a chance, se vocês estiverem com ele, podem dizer que lhe dou os parabéns. Rogério merece entrar para a História pelo caráter.

R.M.: Você se arriscaria a tentar um gol de falta ou de pênalti?

H.: Tem um funk que diz “cada um no seu quadrado“(risos). Deixe o Helton quietinho, embaixo do gol...

L.P.: Rio de Janeiro ou Porto?

H.: Briga boa. Posso ficar em cima do muro?

R.M.: E a carreira musical?

H.: Música para mim é uma terapia. Aprendi muito.

R.M.: Você compôs o hino do Leiría, seu primeiro clube em Portugal...

H.: Sim. Cheguei a fazê-lo, mas tive uns problemas com o presidente quando sai e acabei não entregando a canção.

R.M.: E para o Porto?

H.: Ainda não fui solicitado, mas as portas estão abertas.

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