Zagallo: 'Eu mudei o futebol brasileiro taticamente'

Velho Lobo recebeu o L!NET em sua residência para relembrar os grandes momentos da Copa do Mundo de 1962, no Chile

Rodrigo Lois - 24/06/2012 - 07:13 Rio de Janeiro (RJ)

Zagallo

Zagallo sempre teve de fazer os outros o engolirem. E na Copa do Mundo de 1962 não foi diferente. Para se firmar como titular no Mundial do Chile e ser uma das peças-chave na conquista do bicampeonato, ele se agarrou à sua principal virtude: a capacidade de desempenhar duas funções.

O Velho Lobo recebeu a reportagem do LANCENET! em sua casa, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, e explicou detalhes dessa variação de papel tático que revolucionou não só o futebol brasileiro, mas também o mundial. Ele praticamente criou o 4-3-3 e "enterrou" o 4-2-4.

- Eu ganhei a posição na Seleção por causa dessa diferença em relação aos outros. O Pepe era potência, chute, mas era jogador de 50 metros. Houve uma mudança tática dentro do futebol brasileiro com a minha entrada. Quando o Brasil pegava a bola, eu já abria para a ponta esquerda. Mas quando a perdia, eu recuava para o meio. Depos que fiz isso na Copa, ficou de conhecimento para o mundo inteiro - comentou.

Segundo Zagallo, ele já realizava essa ação desde os tempos de juniores no Flamengo. Porém, a movimentação só se consolidou na Copa de 1962, quando ganhou novamente a disputa com Pepe por uma vaga entre os titulares. Mas quase que sua principal vantagem foi por água abaixo, após a troca do técnico Feola por Aymoré Moreira. Confira abaixo os principais trechos da entrevista com o eterno camisa 13 do Brasil.

Você brigou por vaga no time com Pepe tanto em 1958 como em 1962, ganhando nas duas vezes. Como era e é sua relação com ele?

É verdade, ele ficou na reserva e não jogou nenhuma vez. Tanto em 1958 como quatro anos depois. Ele fica p...da vida com isso (risos). Mas nossa relação é ótima, um grande amigo meu.

Sobre esses dois Mundiais, quais as principais diferenças entre o time de 1958 e o de 1962?

O de 1962 era mais experiente, não tenha dúvida. Também mudou taticamente de vez. Foi a primeira vez que teve de fato um ponta esquerda fazendo a dupla função. Também passamos a jogar mais fechados, porque o time estava mais velho. Além disso, o Pelé não era mais um garoto e o Garrincha era titular.

Como você mesmo comentou, a equipe era muito mais velha no Chile? Isso pesou?

Isso pesou para evitarmos o favoritismo. Em 1958 saímos do Brasil sem crédito algum. Já em 1962 fomos como favoritos. E ganhamos a segunda Copa na experiência. Era muita gente na faixa dos 30 anos. Era uma equipe calejada, experiente, e ganhou em cima disso.

Quando o Pelé se machucou no segundo jogo (contra a Tchecoeslováquia), o que passou pela sua cabeça?

Assim que ele se machucou, nós chamamos o Amarildo para conversar. Eu que tinha levado ele para o Botafogo antes. Eu sabia que aquele garoto era bom demais. Ele entrou contra a Espanha e, olha, a partir dali, conseguiu colocar em condição de igualdade com o Pelé.

 Zagallo relembra os casos do bicampeonato de 62

Aquela Seleção de 1962 era composta basicamente pelo Santos e pelo Botafogo. Quanto que isso ajudou?

Não tenha dúvida de que isso foi fundamental também para o título. Ajudou muito na questão do entrosamento. Eram praticamente duas seleções unidas numa só.


Zagallo cai no choro após faturar o bi no Chile (Foto: Arquivo)

Você já tinha sido campeão em 1958. A sensação de se tornar bicampeão foi diferente, já aos 30 anos de idade?

O mais importante na vida de um jogador de futebol é ser campeão do mundo. É algo que não dá para comparar. Da primeira vez, em 1958, não tínhamos ideia do que iria acontecer, porque nunca havíamos sido campeões. Eu imaginava que iria ter muita gente no Galeão, mas não do jeito que aconteceu. Levamos horas para chegar até o Palácio do Catete. As ruas estavam lotadas. E em 1962 foi a mesma coisa.

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