Clube que mais fez gols no mundo, Santos tem 'DNA ofensivo' desde o começo

Em 1927, Peixe conseguiu façanha de marcar cem gols em 16 jogos. Time teve até craque que 'desafiou' o presidente do Brasil

João Henrique Marques - 05/04/2012 - 06:19 Santos (SP)

Info Santos - centenário (Henrique Assale)

O Santos é o clube que mais marcou gols no mundo (11.792). Não por acaso. A vocação para golear começou cedo. Em 1927, 15 anos após a fundação, o Alvinegro montou um esquadrão autor de 100 gols em apenas 16 jogos no campeonato estadual, uma incrível média de 6,25 por partida.

As equipes vítimas das goleadas foram várias: Barra Funda (11 a 2), Alpargatas (9 a 3), República (10 a 2), Guarani (10 a 1) e Corinthians (8 a 3). No entanto, o super ataque “falhou” justamente na “hora H”. Na final, o time perdeu para o Paulista por 3 a 2 em plena Vila Belmiro, para o Palestra Itália.

No lendário time, quem comandou o ataque com 31 gols foi Araken, filho de Suzino Patusca, primeiro presidente do Peixe, que tinha mais dois filhos, Ararê e Ary, e o sobrinho, Arnaldo Silveira, no clube.

– Sempre foi muito legal conversar com o meu avô sobre o Santos. Ele tinha uma memória fantástica, e guardava as datas de jogos e os gols que fez pelo clube. Nossa família tem uma ligação histórica muito grande com o Santos e somos muito honrados por isso – destacou o jornalista Wagner Raphael, neto de Araken.

O avô de Wagner tinha apenas 15 anos quando se preparava para assistir a um amistoso do Santos ao lado do pai e viu um atleta santista, Edgar da Silva Marques, passar mal pouco antes do jogo. O então treinador, Urbano Caldeira (que, anos depois, passou a dar nome a Vila Belmiro), não hesitou e colocou o jovem Araken para jogar. Ele impressionou ao marcar quatro gols, e desta forma, começou a saga no clube.

Araken também jogou na capital, no exterior, e foi o único jogador paulista a defender a Seleção Brasileira na primeira edição daFeitiço desafiou presidente (Foto: Divulgação/SantosFC) Copa do Mundo, em 1930, no Uruguai. A carreira no futebol chegou ao fim em 1937. E o falecimento aconteceu em 1990.

– Ele narrava a vida com orgulho. Era artilheiro, pé de valsa, cantor, poliglota, e ator. Fez até filme (Os Desclassificados, de 1972) com a atriz Joana Fomm – contou o neto do primeiro ídolo da história santista.

O time da ‘técnica e disciplina’

Não era só a qualidade técnica que o Santos que chamava a atenção no ano de 1927.  A rigidez disciplinar do então presidente do clube, o médico Antonio Guilherme Gonçalves, também impressionava.

Naquele ano, o Campeonato Paulista foi interrompido às vésperas da final para a disputa do Brasileiro de Seleções Estaduais. No duelo entre São Paulo e Rio de Janeiro, em São Januário, os paulistas se revoltaram com a marcação de um pênalti, e impediram a sua cobrança.

Das tribunas do estádio, o presidente da república, Washington Luis, enviou ordem para que o pênalti fosse batido. Então,o atacante santista Feitiço teria dito:

– Diga ao excelentíssimo senhor presidente que ele manda no Palácio do Catete, mas quem manda aqui no campo somos nós – bradou, apoiado pelo goleiro Tuffy e mais seis jogadores paulistas, que deixaram o campo.

A penalização por parte do Santos foi rápida e o rígido presidente Gonçalves que, além do Alvinegro, também comandava a seleção paulista na época, e expulsou os jogadores do clube pouco antes da final do Estadual.

Como saiu de campo derrotado por 3 a 2 na decisão contra o Palestra Itália, o Santos passou a ser chamado por jornalistas de “time campeão da técnica e disciplina”. Por mais oito anos, a torcida se referia ao clube somente desta forma em uma tentativa de minimizar a falta de títulos. A alcunha é citada no hino oficial do clube.

Muitos gols, poucas conquistas...

Apesar de montar alguns “esquadrões” em seus primeiros anos de existência, como o que tinha o “ataque dos100 gols” em 1927, o Santos demorou a conquistar títulos relevantes. O maior jejum de conquistas da história do clube vai justamente do período de fundação até o ano de 1935.

Após 23 anos de existência, o time conquistou o Campeonato Paulista daquele ano sobre o Corinthians, fora de casa, e encheu de orgulho os seus torcedores.

Além da taça, como já era de costume, o time ainda teve o melhor ataque do torneio (32 gols).

O título ajudou a eternizar Araken Patusca como ídolo do clube. O atacante, que havia deixado o Santos em 1929, voltou em 35, e fez gol na vitória por 2 a 0.

Araken Patusca: ídolo santista ; Acima, foto de Feitiço, que desafiou o presidente da república (Foto: Reprodução)

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