Simples e abusado, Geuvânio despreza Europa e quer fazer história no Santos

Conheça a história do novo atacante titular do Peixe. No clube há quatro anos, ele relembra momentos difíceis, como quando ia a pé e de kombi para os treinos

Bruno Cassucci - 17/11/2013 - 07:03 São Paulo (SP)

Geuvânio treinando no Santos (Foto: Ricardo Saibun/Divulgação)

Geuvânio foge do estereótipo boleiro. Não é do tipo que ostenta luxo e bens materiais, despreza o futebol europeu e quer fazer sucesso com sua habilidade e não pelo papel tático em campo.

– Gosto de dar trabalho para os zagueiros, ir pra cima, pra dentro!

Há quatro anos no Santos, ele viu diversos outros atacantes furarem a fila e chegou a pensar que sua vez não iria chegar. Após descidas e subidas do time júnior, muitos treinos e pouquíssimos jogos – só fez sete como profissional – foi o último homem de frente a ser aproveitado, contando atletas contratados e promovidos da base alvinegra.

Quem primeiro apostou nele foi Adilson Baptista, em 2011. Depois, Muricy Ramalho também lhe deu algumas poucas chances. Mesmo assim, o garoto seguia sendo um desconhecido da maioria da torcida. As esperanças de Geuvânio, contudo, se renovaram quando, após o Paulistão, ele voltou de empréstimo do Penapolense e soube que Claudinei Oliveira, técnico que o dirigiu no sub-20, assumiria o profissional. Porém, pouco ou quase nada mudou. Todos os concorrentes do atacante foram aproveitados, enquanto ele nem sequer ficava no banco. Em setembro, ainda foi “premiado” com uma viagem ao Vietnã e Indonésia com um catadão sub-23.

A sorte virou na partida contra o Cruzeiro, há duas semanas. Sem opções no elenco, Claudinei relacionou Geuvânio e colocou o garoto no segundo tempo da partida. Muita correria, um chute perigoso e bastante vontade foram suficientes para o atacante virar titular. Muito pra quem era reserva até em treino, pouco para quem sonha alto como ele.

Se firmar no Peixe, ganhar títulos, ser reconhecido. Terminar de quitar a casa que comprou para sua família e deixar de morar no CT Rei Pelé. Estas são as principais ambições de momento do sergipano, que desde os 2 anos mora em São Paulo.

Jogar no Real Madrid, Barcelona ou outros gigantes da Europa? Para Geuvânio, só no videogame.

– Sinceramente? Não penso. Se fizer um bom contrato aqui, não tenho por que sair. Gosto de jogar futebol, não importa onde. E nada é melhor do que arroz, feijão e ovo – afirma.

Com contrato até 2015, ele tem mais quatro jogos nesta temporada para mostrar que pode ser útil ao time no ano que vem. A começar pelo duelo contra o Vitória, neste domingo, às 17h, no Barradão.

Caveirinha, como Geuvânio é chamado pelos companheiros, não teve relação de amizade com Neymar, mas sempre fez questão de observar o ídolo. Agora, inspirado nele, planeja vôos altos na Vila Belmiro.

– Espero fazer minha história aqui. Não quero ser apenas um dos milhares que passaram pelo Santos.

Jogador já foi a pé e de kombi para os treinos

De origem humilde, Geuvânio só conseguiu comprar seu primeiro carro no ano passado, quando foi contratado pelo Santos. Antes ele estava emprestado ao clube pelo Jabaquara e tinha dificuldades para se locomover e ir treinar.

Muitas vezes, o atacante ia a pé da Vila Belmiro, onde morava, ao CT Rei Pelé – um quilômetro de distância. Isso só mudou quando, após receber proposta da Academica de Coimbra (POR), o então presidente do Santos, Luis Alvaro Ribeiro, soube das dificuldades do jogador e tomou decisão inusitada: ordenou que a kombi do clube, usada para transportar roupas e materiais de treinos e jogos, pegasse Geuvânio e o levasse para o CT.

– Isso me ajudou pra caramba. Quando chovia, chegava todo molhado e sujo no treino – lembra.

Com o carro, ficou mais fácil para Geuvânio subir a serra todos os fins de semana para ver a família e a namorada. Isso, porém, ficou mais difícil nas últimas semanas, com a recente rotina de viagens e concentrações. Ossos do ofício.

Atacante Geuvânio, em treino do Santos (Foto: Ricardo Saibun / Divulgação)


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Casa pra família com as economias

Geuvânio ainda recebe um salário baixo para o padrão dos jogadores de futebol, mas já conseguiu realizar um sonho com suas economias. Ele comprou uma casa e livrou seus pais do aluguel. Na verdade, ele ainda está pagando as prestações do imóvel, localizado no bairro de São Miguel Paulista, na Zona Leste de São Paulo.

Com a ajuda que o filho dá, Maria Aparecida já não precisa mais trabalhar. No entanto, o pai do atleta, Givaldir segue na labuta. Ele é ajudante-geral em uma empresa que fabrica ventiladores. Geuvânio espera que isso esteja com os dias contados.

– Meu maior objetivo é ajudá-los. Falei pro meu pai para irmos batalhando, que logo as coisas vão melhorar, tenho certeza.

Bate-Bola com Geuvânio, atacante do Santos, ao LANCE!Net

Como chegou no Santos e qual a sua trajetória no futebol?
Comecei nos campinhos de terra. Joguei em vários campos da vila, como Leões do Mar, Relâmpago... Aos 14 anos encontrei meu empresário, que apostou em mim. Me levaram para o Jabaquara, onde o professor Manoel Maria acreditou em mim. Minha estreia foi justamente contra o Santos, fiz gol e fui muito bem. Os diretores, então, gostaram de mim e fizeram um empréstimo de um ano para o Santos,  de 2009 para 2010. Renovei por mais um ano, fiz boa Copinha e subi para o profissional. Depois, acabou meu contrato, voltei ao Jabaquara e, após três meses, o Santos me comprou.

Sabe por que o Claudinei demorou tanto a te usar no profissional?
Sempre treinei forte e não sou muito de ficar falando, conversando com professor. Gosto de mostrar em campo e sempre soube que uma hora minha vez chegaria. Não era possível (risos). Deixei nas mãos de Deus.

Como está lidando com essa ascensão repentina? Já é assediado?
Hoje em dia um pessoal já reconhece, é bom, gostoso. Mas nada de mais. Ainda dá para passear.

Pensa que, como titular, pode ter uma valorização e deixar o CT?
Não quero falar de renovação ou aumento agora. Não é hora. Agora quero jogar, ir bem e me firmar.

Pode render mais?
O torcedor mesmo cobra. Sempre tem que ir melhor. Estou pegando ritmo e espero evoluir.

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