Clique aqui e confira as outras notícias do dia
Alberto Murray Neto fez duras críticas ao COB (Crédito: Reginaldo Castro)
A chegada no belo escritório de advocacia em um ponto nobre da capital paulista já demonstra parte da paixão de Alberto Murray Neto pelo esporte. Após um treino para a Maratona de Paris, o advogado prepara-se para uma das atividades que mais lhe dão prazer ultimamente: denunciar abusos do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e de seu presidente, Carlos Arthur Nuzman.
O paulistano de 43 anos diz que já acompanhou dez Jogos Olímpicos. Muito para a idade, basta fazer as contas. No entanto, a explicação é genética: ele é neto do falecido major Sylvio de Magalhães Padilha, um dos mais importantes dirigentes esportivos do país, atleta, ex-presidente do COB, da Odepa e membro ativo no Comitê Olímpico Internacional (COI).
Assim, graças às ótimas relações pessoais que mantém com o alto escalão do mundo olímpico, Murray Neto merece ser ouvido.
Marcel Merguizo : Você acredita na candidatura do Rio de Janeiro como sede da Olimpíada de 2016?
Alberto Murray Neto : O Rio não vai ganhar, isso posso lhe assegurar. Carlos Osório (secretário-geral do Rio-2016) diz que é uma irresponsabilidade minha dizer que não vai ganhar, como seria a dele dizer que vai ganhar. Eu digo que não vai ganhar com conhecimento de causa. Vivi minha vida inteira e ainda vivo o movimento olímpico. Meu avô foi membro do COI durante 40 anos. A gente tem família e amigos que ainda convivem no mesmo meio.
Paulo Roberto Conde: O que lhe garante que o Rio não vai ganhar?
Alberto Murray Neto : Os votos. A América espanhola está comprometida com Madri há muito tempo. Tenho um grande amigo que trabalha na candidatura de Tóquio e me diz que o Rio não é considerado adversário. Não estão preocupados com o Rio. A Ásia vai votar em Tóquio e a Europa, em Madri. Ele me dizia que a única chance de Chicago era se Barack Obama ganhasse as eleições nos Estados Unidos. Posso assegurar que os membros do COI votam conforme interesses regionais, de patrocinadores e de televisão, depois pensam se a candidatura é boa ou não.
MM: O Pan-2007 não ajuda a candidatura do Rio, como diz o COB?
Alberto Murray Neto: Quem vota na Odepa (Organização Desportiva Pan-Americana), muitas vezes, não vota no COI. Os Jogos Olímpicos são o maior evento envolvendo gente e patrocinadores do mundo todo. No mesmo momento em que uma cidade ganha, ela é obrigada a assinar contratos com patrocinadores do COI, que é obrigado a pagar indenizações absurdas se algo não der certo. Por isso, evitam escolher países instáveis.
MM: Qual foi o erro no Rio-2007?
Alberto Murray Neto: Não precisava de tanto luxo. Diziam que era um Pan Olímpico. Mentira! O Complexo Maria Lenk não está sendo usado, o Engenhão está com o Botafogo, o Velódromo não foi usado ainda, a Arena é casa de shows. O legado foi zero. Não foi feito nada do prometido, como o metrô, o transporte para a Barra...Não fizeram as melhorias em hospitais. Na Olimpíada é diferente, você precisa estar pronto para que haja uma catástrofe, atentados terroristas. O Rio não tem esta condição.
PRC: Chicago é favorita, como dizem alguns especialistas?
Alberto Murray Neto: Os Estados Unidos são favoritos porque eles têm algo em mente: a cada três ciclos olímpicos realizam uma lá. O presidente Obama deve atrair muitos votos da África. Ele tem suas origens lá e influencia os votantes. Já a Europa, não. Eu tinha impressão de que o Rio podia passar para a segunda rodada, sim, por ser politicamente correto. Para não mostrarem discriminação e só votarem em países ricos. Mas converso com as pessoas e sei que a candidatura do Rio, tecnicamente, é muito pior do que as outras.
MM: O COB sabe disso?
Alberto Murray Neto: Alguns acham que podem vencer, mas o Nuzman sabe que o Rio2016 é uma candidatura derrotada, ele sabe que não vai ganhar. Ele não se elegeu membro do comitê executivo do COI, que conduz o destino do Comitê. Perdeu por duas vezes a eleição. Acha que vai ganhar uma Olimpíada? Não tem tanto prestígio assim. No começo, dei crédito a ele. Ele queria muito isso, apesar de usar métodos que não concordo. Uma candidatura olímpica podia ser boa se fosse feita com honestidade e para divulgar o movimento olímpico no Brasil. Mas quando vejo a safadeza que é.... Pô, nem fecharam as contas das candidaturas de Brasília-2000 e Rio-2004. Hoje, a candidatura despeja muito dinheiro público sem destinação correta, são gastos no exterior que não têm prestação de conta correta, além de criar um cabide de emprego.
PRC: Você defende uma CPI...
Alberto Murray Neto: Acho que poderia ter uma candidatura se fosse feita com dinheiro privado, com transparência. A gente precisa ter uma mentalidade olímpica. O COI vê isso. O Brasil não é um país olímpico. Não podemos ser derrotados com escândalos. Não deixaram instalar uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) com medo de que vá atrapalhar a candidatura de 2016. Eu acho melhor ter a CPI agora, pois tem um intuito de até ajudar. A CPI vai sair, não tenho dúvidas.
MM: Você avisa o COI sobre os escândalos que vê por aqui?
Alberto Murray Neto: Eu faço um trabalho no qual mando, semanalmente, um relatório para o presidente do COI, Jacques Rogge. Ele me conhece, conhece minha família, sou árbitro do CAS, ele sabe que não sou aventureiro. Ele já me respondeu dizendo que está atento com tudo o que está acontecendo. Não foi uma resposta protocolar. Ele é um cara preocupado com a moralização do COI.
PRC: E quanto à relação entre Ministério do Esporte e o COB?
Alberto Murray Neto: O que não gosto hoje é que tudo está muito comercial. O COB virou um organizador de eventos e um promotor de candidaturas. Não está preocupado com o esporte. Com tanto dinheiro, uma parte deve ser destinada para o esporte escolar, universitário. Além disso, para trabalhar no Ministério do Esporte tinha de ser especializado, não alguém que não conseguiu se eleger na política e ganha o cargo. O que falta é uma política esportiva de longo prazo, que independa de governo. Esse é o grande mal do Brasil. O Ministério do Esporte e nada é a mesma coisa, pois cortaram quase 100% da verba do governo (a previsão era de R$ 1,37 bilhão, mas deve haver corte de 94% e sobrariam R$ 75 milhões). É patético e recheado de irregularidades. A coisa é escandalosa.
MM: Você já pensou em ser presidente do COB?
Alberto Murray Neto: Não tenho condições. Tenho de trabalhar no escritório, não poderia assumir o cargo. Tem gente mais qualificada que eu gostaria de apoiar. Tem o Lars Grael, a Magic Paula, que são esportistas e envolvidos. No meu caso, não. Para ser presidente, além de ser membro, você tem de ser rico ou aposentado, e não sou nenhum dos dois.
PRC: O que vai acontecer depois da candidatura Rio-2016?
Alberto Murray Neto: Se não tomar cuidado, Rio-2020 está aí... Eles acham que são eternos. Em resumo: a máscara caiu e quebrou! Era muito esperado do cara que revolucionou o vôlei, mas o tempo passou e a gente viu que a coisa piorou. Não digo que um ou outro leva grana. Só há muitos conflitos de interesse. O esporte olímpico é o próximo escândalo nacional. Cedo ou tarde, isso vai explodir.
Copie o código abaixo e cole no seu blog
<p><a href="">Ex-dirigente: 'O COB não pensa no esporte'</a>, LANCEPRESS! - Alberto Murray Neto ainda diz que o Rio de Janeiro não vai ser a sede da Olimpíada de 2016</P>
