Villeneuve dispara: 'Poucos pilotos falam algo que presta'

Campeão da F-1, da Indy e das 500 Milhas detona artificialidade das corridas de hoje e elogia Stock Car e ídolo Emerson

Jacques Villeneuve (Foto: Tom Dib) Villeneuve não mediu palavras ao comentar os assuntos do automobilismo atual (Foto: Tom Dib)

Fred Sabino
Publicada em 07/08/2011 às 09:17
São Paulo (SP)

Tal como um Romário no futebol ou um Lobão na música, Jacques Villeneuve fala o que pensa e não mede palavras para se expressar. Até palavrões saem com naturalidade. Assim, o canadense, um dos três pilotos da História a conquistar o título da Fórmula 1, da Fórmula Indy e das 500 Milhas de Indianápolis, ao lado de Mario Andretti e Emerson Fittipaldi, conversou por dez minutos contados com o LANCE!.

Talvez pareça pouco tempo, mas a metralhadora giratória de Villeneuve estava a mil por hora. Sobrou para o eterno desafeto Michael Schumacher, os atuais pilotos da F-1 e os dirigentes. Mas nem tudo foram críticas. Jacques se mostrou feliz com o convite para disputar a Corrida do Milhão da Stock Car e cogitou correr regularmente na categoria, embora sua maior meta seja a Nascar.

LANCENET!: Por que você aceitou esse desafio de correr na Stock Car?
JACQUES VILLENEUVE: Porque eu tinha um fim de semana livre e amo correr (risos). É uma grande categoria, um bom campeonato, tem caras com os quais competi na Fórmula 1, como por exemplo o Ricardo Zonta, que foi meu companheiro de equipe, e isso mostra que não é uma competição amadora, mas muito profissional. E eu queria sentir como é correr nessa categoria. É a categoria número 1 do Brasil e tem muitos simpatizantes. Além disso, a corrida será numa pista que eu já conheço, o que é bom.

LNET!: E quais foram as suas impressões sobre o carro?
JV: Eu gostei, reage como um carro de corrida apropriado, o que é bom. Estou acostumado a mais potência na América do Norte. Mas foi divertido, agora quero sentir como ele funciona numa situação de corrida, quando os carros ficam mais próximos. Mas as impressões foram boas.

LNET!: Você disse que gostaria de voltar a disputar um campeonato regular, durante o ano todo. Há alguma possibilidade de você disputar toda a temporada da Stock Car um dia?
JV: Por que não? (risos). Ainda não conversamos sobre isso, mas seria muito interessante. É um grande campeonato, então por que não? Estou no Brasil, que não é um mau país, certo? (mais risos).

LNET!: Você tem 40 anos e ama as corridas. Por quanto tempo você acha que continuará correndo?
JV: Vou continuar até quando eu me sentir entusiasmado em estar num carro de corrida. Vou continuar até o ponto em que os sacrifícios continuarem valendo a pena. Não tenho medo dos riscos, minha vida são as corridas, e vou continuar até o momento em que eu não estiver mais disposto a correr esses riscos. O dia em que isso acontecer, vou ficar na cama ou então jogar golfe. Não é só uma questão de competir no automobilismo, mas uma atitude de vida, eu gosto de motocross, esqui, karts. É algo que está dentro de mim, então vou seguir.

LNET!: Michael Schumacher voltou à Fórmula 1 no ano passado e seus resultados vem sendo decepcionantes. Você acha que ele cometeu um erro ao retornar numa competição de nível tão alto?
JV: Não acho que ele tenha cometido um erro, ele gosta de correr todo o fim de semana e está fazendo o que ama. Ele nunca mais será competitivo como as pessoas esperam, mas pode ter um bom desempenho.

LNET!: Você competiu contra Schumacher, Mario Andretti, Nigel Mansell, Emerson Fittipaldi, Mika Hakkinen, Fernando Alonso, Jenson Button, entre outros grandes pilotos. Qual deles foi o melhor?
JV: (Após longa pausa) Você deve pensar de acordo com o momento de cada um e o meu momento. Quando corri na Indy contra Mario e Emerson, eu ainda estava aprendendo muito. Então, eu estava observando como eles faziam as coisas para tentar fazer o meu melhor. Na Fórmula 1, eu cheguei logo para tentar vencer, foi uma abordagem diferente. Então, meu alvo era bater Michael, porque ele era o que tinha os melhores números. Então, Schumacher era o piloto que eu mais queria bater, e consegui.

LNET!: Na decisão de 1997, Michael jogou o carro em cima do seu e você disse que na Nascar um piloto tem a oportunidade de dar o troco sem que haja punições. Você teve vontade de devolver isso um dia?
JV: Que nada! Com aquilo ele me ajudou a ganhar o campeonato (piscando o olho, irônico). Se ele não tivesse feito aquilo, eu até poderia tê-lo ultrapassado naquele momento, mas ele poderia ter me passado dez voltas depois. Mas com aquilo ele parou na brita e me ajudou muito! (gargalhadas). Foi uma corrida emocionante e, por causa da fechada que ele me deu, aquele campeonato é lembrado até hoje. Se ele não tivesse tentado me tirar da prova, seria mais um campeonato qualquer. Então, foi muito positivo! (risos).

LNET!: Vários pilotos de hoje não falam o que pensam...
JV: (Interrompendo) Porque eles não pensam em nada (risos).

LNET!: Mas você sempre diz o que pensa. A postura dos pilotos de hoje é negativa para o automobilismo e torcedores?
JV: Há poucos pilotos que dizem algo que presta. Fernando Alonso fala pouco, mas quando fala é alguma coisa que vale a pena ouvir. Michael Schumacher sempre fala demais,  você muitas vezes não sabe o que ele pensa de verdade. A maioria dos outros são crianças que não têm nada a dizer, só pilotam o carro e depois vão para casa chorar nos ombros da mãe.

LNET!: A Fórmula 1 de hoje tem asa móvel, Kers, vários dispositivos...
JV: (Interrompendo) Eu detesto isso! Ficou tudo muito artificial. Há mais ultrapassagens, mas isso eliminou a luta entre os pilotos na pista. Não acho que essas ultrapassagens sejam emocionantes, são uma merda! (enfático). Um ultrapassa o outro e não acontece nada! O cara não põe o carro de lado e freia mais tarde. É isso, não há emoção.

LNET!: Você assiste às corridas hoje em dia?
JV: De vez em quando eu tento, mas fico muito puto e desligo! Não dá, quando vejo alguém se aproveitando de uma asa aberta e o outro não pode fazer nada, fico irritado. Isso não é boa corrida. Nós víamos boas corridas sem asa móvel, então não precisava disso. Com a asa móvel, os carros mais velozes se afastam ainda mais dos outros, porque um puxa o outro, então é contra-producente. As pessoas gostam de ver carros misturados, alguém que venha de trás chegar na frente. Um carro mais lento que esteja na frente do outro não pode fazer nada para defender sua posição.

LNET!: Você chegou jovem à F-1 (25 anos) e logo foi centro das atenções. Você se decepcionou com a politicagem da categoria?
JV: Eu não ligava para a politicagem, queria apenas competir. Na Williams, todos estavam preocupados mesmo com a competição, ninguém falava merda. Quando fui para a BAR (equipe da qual era um dos sócios), a coisa começou a mudar, fiquei maluco com isso. Minha energia passou a ser desperdiçada fora da pista, foi uma merda!

LNET!: E já que você agora corre por prazer e quer ficar por muito tempo, qual sua meta?
JV: O objetivo é tentar competir na Nascar por todo o tempo. Mas há outras alternativas para me divertir, até a Stock Car.

LNET!: Qual foi seu ídolo na infância: seu pai ou algum outro piloto?
JV: Quando eu era criança e ia para as corridas com meu pai, conheci vários. Mas meu primeiro herói era Emerson Fittipaldi. Depois que eu cresci mais um pouco, naturalmente meu pai era um ídolo. Um pai é sempre o herói para o filho, e eu acompanhava o que ele fazia.

LNET!: Seu carro na Stock é vermelho e tem o mesmo número 27 com o qual seu pai ficou conhecido.
JV: É muito legal, tenho aqui uma "Ferrari" 27 bacana (risos). É um número especial, na Fórmula Indy fui campeão e venci as 500 Milhas de Indianápolis com esse número, então tenho boas memórias!


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