Zé Roberto: 'Jogo sossegado mais dois anos em alto nível'

Principal reforço do Grêmio em 2012, veterano meia, de 37 anos, se considera o maior brasileiro na história do futebol alemão

Bruno Andrade
Guilherme Cardoso
- 24/06/2012 - 08:00 Enviados especiais
a Porto Alegre (RS)

Zé Roberto - Grêmio (Foto: Ricardo Rímoli)

Ansioso, cheio de disposição e pronto para provar que pode jogar em alto nível. Não se trata de um garoto desconhecido. Quem está com esse pensamento é o veterano e vitorioso Zé Roberto, principal reforço do Grêmio nesta temporada.

De volta ao futebol brasileiro após passagem pelo Al-Gharafa (QAT), o meia, de 37 anos, não vê a hora de entrar em campo e seguir "quebrando paradigmas". Com físico invejável, ele aguarda a regularização da sua documentação para estrear no Brasileirão – esperava-se que a estreia seria neste domingo, contra o Flamengo, no Olímpico.

À espera dos três filhos e da esposa, que ainda estão no Qatar, o jogador recebeu a reportagem do LANCENET! em um hotel próximo ao Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre.

Apesar de se considerar o principal brasileiro na história do futebol alemão, Zé Roberto ainda quer mais. Ele quer jogar até os 40 anos.

Como está o período de readaptação ao Brasil?
Eu estava muito ansioso para voltar ao Brasil e me readaptar ao cotidiano de treinos e jogos. Não vejo a hora de jogar. Fiz meu último jogo no Qatar no dia 12 de maio e, desde então, não tive tempo livre. Antes mesmo de acertar com o Grêmio, comecei a treinar para aprimorar a parte física. Hoje, tenho treinando em dois períodos. Estou gostando de Porto Alegre, apesar de dormir na maioria do tempo vago (risos).

Teme estar despreparado para enfrentar o futebol brasileiro?
São quase quatro anos fora, né? Vou precisar de um tempinho para me readaptar. Hoje, o futebol brasileiro está muito mais dinâmico e disputado. Acompanhei o último Campeonato Brasileiro e vi que ele foi decidido nas últimas rodadas. Temos grandes clubes, grandes jogadores e tenho certeza de que a disputa pelo título vai ser acirrada.

Como foi o período que passou no Qatar? O futebol de lá é muito diferente do nosso?
Muito diferente. Lá, nós jogamos apenas uma vez por semana. Os jogos são todos em Doha (capital) e aos fins de semana. Você quase não viaja. Você treina apenas uma vez por dia. Com isso, o tempo para curtir a família é grande. Eu estava precisando de um tempo assim na carreira. No Qatar, recarreguei as energias. Estou com as baterias cheias e recarregadas para dar continuidade no trabalho no Grêmio.

Qual o motivo para ter voltado ao futebol brasileiro? Sinal de que a aposentadoria está chegando?
Consolidei minha carreira fora do país, mas sempre senti vontade de me aposentar no Brasil. Em 2006, quando voltei para jogar pelo Santos, pensei que ia dar início neste projeto. Mas, por ter feito uma grande temporada, recebi uma proposta para jogar mais dois anos pelo Bayern de Munique. Não é sempre que aparece uma boa oferta para um jogador entre 32 e 33 anos. Hoje, não imagino quando vou pendurar as chuteiras. Posso jogar sossegado mais dois anos em alto nível.

Por que não voltou para o Santos? O que aconteceu?
O Santos me procurou, assim como outros clubes do Brasil e de fora. Apesar do interesse, o Santos só queria conversar depois da Libertadores. Não dava para ficar esperando. Tenho meus filhos e um projeto de vida. Aí, surgiu a proposta do Grêmio, que me interessou muito. Não pensei duas vezes e acertei com Luxemburgo. Não ficou mágoa com o Santos. Sou muito grato pelo Santos, onde pude realizar o sonho de vestir a camisa 10 do Pelé.

Mas não seria maravilhoso jogar com Ganso e Neymar?
Atuar ao lado de jogadores do patamar de Neymar e Ganso seria bom para qualquer jogador. Mas temos grandes atletas aqui no Grêmio também, temos um time competitivo. O Grêmio não está longe do patamar do Santos. Luxemburgo está formando uma equipe que vai lutar pelo Brasileirão e pela vaga na Libertadores. Queremos formar uma grande equipe para disputar a Libertadores de 2013 no novo estádio, que fica pronto em dezembro. É um projeto ambicioso. Estou impressionado com a estrutura e a organização do clube.

A boa relação com Luxemburgo pesou na escolha pelo Grêmio?
Eu diria que influenciou, foi um fator importante. Eu trabalhei com ele na Seleção Brasileira e no Santos. A presença dele me fez muito bem no Santos, onde ganhamos o Campeonato Paulista e chegamos na semifinal da Libertadores. Eu fiz uma grande temporada e ele foi o personagem principal na minha melhor fase no Santos. Ele me colocou em uma posição na qual nunca tinha jogado (meia armador), com liberdade. Fiz muitos gols e me destaquei. Com certeza, é um treinador que somou muito na minha carreira. Apesar da experiência que já tenho, trabalhar com ele mais uma vez vai me ajudar muito.

Luxemburgo apostou em você mesmo com 37 anos. Como você lida com a questão da idade?
A questão de idade é algo que dão muito valor aqui no Brasil. Aqui, muitos acham que o jogador que passa dos 30 anos já está velho para jogar. Essa minha volta é para quebrar, outra vez, esse paradigma. Já quebrei esse paradigma pelo Santos, com 32 para 33 anos. Naquela ocasião, fui considerado o melhor jogador no Brasil e fui convocado à Seleção. Desta vez, acho que não vai ser diferente. Mesmo com 37 anos, me sinto muito bem. Mas a maior prova não é falar que estou bem ou tirar a camisa na apresentação para mostrar meu físico. Basta vocês verem Juninho Pernambucano (37) e Gilberto Silva (33) em ação. São jogadores com idade avançada, mas que estão correndo e jogando mais do que garotos de 20 anos.

Mas qual o seu segredo para manter a boa forma?
Eu sempre priorizei a parte física, sempre me cuidei muito e me alimentei bem. Sou um pai de família exemplar também. Nas férias, procuro treinar e brincar com meus filhos, ou seja, não fico parado. Poxa, chegar aos 37 anos com a minha forma física é um privilégio. Isso é um presente que Deus me deu. Nunca sofri uma grave lesão, isso também ajuda. Mas o atleta também precisa se cuidar e dormir bem. Uma noite bem dormida ajuda a superar um dia cansativo de trabalho. O desgaste físico é grande aqui no Brasil.

“Tirar a camisa no momento em que fui apresentado no Grêmio foi uma reação espontânea. Não quis provar que estava bem fisicamente. Aliás,  tive um problema em casa com essa atitude. Minha esposa ligou do Qatar e pegou no meu pé (risos)”

Além do preconceito da idade, você já superou outras barreiras durante os 20 anos de carreira?
Já tive de quebrar muitos paradigmas. Eu convivo com isso. Mas isso sempre me motivou para alcançar os objetivos. As adversidades superadas me credenciaram a ter uma carreira vitoriosa. Na Copa de 2006, por exemplo, todos queriam o quinteto (Kaká, Ronaldinho, Robinho, Adriano e Ronaldo), e acabou que ficou o quarteto (sem Robinho). Eu sempre corri atrás do meu espaço na Seleção e consegui a vaga de titular. O Brasil não ganhou a Copa, mas me destaquei. Isso sem falar dos problemas enfrentados no início de carreira, quando a minha mãe pedia dinheiro emprestado para que eu pudesse ir treinar na Portuguesa. Sempre passei por cima das dificuldades.

Destacar-se na Alemanha é uma das barreiras superadas?
Na Alemanha, consegui coisas que jamais sonhei. Fui ídolo dos maiores clubes do país e consegui o passaporte alemão. Hoje, sou brasileiro e também um cidadão alemão. Tenho portas abertas lá. Felizmente, conquistei muito títulos e deixei meu nome na história do país.

Pode-se considerar você o maior jogador brasileiro na história do futebol alemão?
Com certeza, com certeza... Se analisarmos o tempo e o que conquistei no país, acredito que sim. Fora o Dedê, que jogou quase 13 anos pelo Borussia (Dortmund), não me recordo de cabeça de outros brasileiros que tenha jogado tanto tempo na Alemanha. Sou o estrangeiro com maior número de jogos na Bundesliga também.
Nota da redação: O lateral-direito Dedê defendeu o Borussia Dortmund de 1998 a 2011.

A sua renovação de contrato com o Grêmio depende da classificação à Libertadores?
O Grêmio queria me dar um contrato de um ano, mas eu preferi seis meses. Meus objetivos estão em primeiro lugar. Meu projeto é jogar a Libertadores. Se conseguirmos a vaga, renovamos por mais seis meses. A tendência é sempre de renovação em caso de uma boa temporada. Meu pensamento é fazer um bom Campeonato Brasileiro, buscar uma vaga na Libertadores e, sei lá, até mesmo encerrar a minha carreira no Grêmio. Apesar do pouco tempo, estou muito feliz aqui.

Não existe o sonho de encerrar a carreira pela Portuguesa?
Tenho um carinho enorme pela Portuguesa. A Lusa é o time do meu coração. Foi lá que eu aprendi a jogar e me tornei um jogador de futebol. No momento, torço muito para a Portuguesa voltar a ser o grande time que sempre foi.

Acha que falta um Zé Roberto para a Portuguesa voltar a brigar por grandes títulos?
Claro que falta, poxa. Falta um time competitivo. Candinho voltou para ser o supervisor, ele é um profissional que conhece muito bem o clube. Ele quer formar um grande time. Gostei da contratação do Dida. É um excelente goleiro. Dida ficou quase dois anos parado e vai precisar de tempo para voltar com tudo, mas ele vai ajudar muito a Portuguesa no Brasileirão.

Apesar de ter voltado agora, você acredita que o Brasil está pronto para sediar a Copa do Mundo?
O Brasil tem tudo para realizar uma grande Copa do Mundo. O pessoal está muito motivado aqui no Brasil, vejo isso pelos dirigentes do Grêmio. Se a África conseguiu, o Brasil consegue tranquilamente.

E o Qatar? Como estão os preparativos para a Copa de 2022?
O poder financeiro do Qatar é muito grande, é um país em crescimento. Acho que eles não vão ter dificuldades. Com certeza, o Qatar vai fazer a Copa do Mundo mais moderna da história. Eles têm belíssimos projetos de estádios. O povo está muito feliz por ter a possibilidade de sediar uma Copa do Mundo. De olho na Copa, os clubes do Qatar estão contratando muitos jovens da África e da América do Sul. O Qatar é um país que não tem muita visão na formação de atletas. No futuro, eles vão tentar naturalizar esses garotos de fora, com certeza.

Ainda pensa na Seleção?
(Risos) Não, não penso mais na Seleção. Escolhi deixar a Seleção faz tempo, quando resolvi dar espaço para os novos talentos. A Seleção precisava dessa renovação. Com Mano Menezes, essa renovação está acontecendo. Estamos no caminho certo e temos uma boa base com Oscar, Neymar, Ganso, Leandro Damião e companhia. Essa molecada tem tudo formar um grande time.

Apesar de ainda não pensar em pendurar as chuteiras, você já tem projetos como aposentado?
Não, ainda não. Nunca me envolvi com investimentos de outro ramos, meu foco sempre foi o futebol. Ainda não parei para pensar o que vou fazer quando me aposentar. Mas ainda falta tempo (risos).

Por que essa vontade enorme de seguir jogando futebol? Você não pensa em outra coisa...
Sou movido pela paixão do futebol. Eu vivo o sonho de ser jogador. Nunca liguei para fama, para o dinheiro, sempre me preocupei em jogar bola. A chama do futebol ainda queima dentro de mim. Se essa chama ainda queima dentro de mim, vou deixar ela queimar, pô. Tenho um prazer enorme de jogar. Amo muito o que eu faço.

CARTILHA DA BOA FORMA

Descanso
“O jogador precisa dormir bem e no horário adequado. Uma noite bem dormida ajuda a superar um dia cansativo de treinamento. O desgaste físico é muito grande no Brasil”

Alimentação
“A alimentação é um fator muito importante no desenvolvimento de um jogador. Aconselho tomar um café da manhã reforçado e se policiar com o excesso de gordura”

Família
“Nada melhor do que ter um tempo livre para ficar em casa e curtir a família. Ir ao parque para brincar com os filhos é um passatempo ótimo. O cinema também é uma opção legal. Mas aí você vai acabar vendo os filmes que os seus filhos escolherem (risos)”

ZÉ ROBERTO NA ALEMANHA

Leverkusen (1998/02)
Chegou ao Bayer Leverkusen após rápida passagem pelo Flamengo (emprestado pelo Real Madrid). Pelo Leverkusen, o brasileiro realizou 113 partidas, marcou 17 gols e deu 34 assistências.

Bayern de Munique (2002/06 e 2007/09)
A melhor época de Zé Roberto na Alemanha. Foram 169 jogos, 14 gols, 55 assistências e quatro traças da Bundesliga (2002/03, 2004/05, 2005/06 e 2007/08).

Hamburgo (2009/2011)
Após rejeitar a renovação de contrato com o Bayern de Munique, Zé Roberto aceitou a proposta do rival Hamburgo. Em quase dois anos, ele realizou 54 jogos, marcou sete gols e deu 15 assistências.

Você comentarista: