Toni Nadal diz que Federer é melhor que o seu sobrinho

Treinador e tio de rafael Nadal está de passagem pelo Brasil para conversar com treinadores

Fábio Aleixo - 06/10/2012 - 07:00 São Paulo (SP)

Se Rafael Nadal tem hoje 11 títulos de Grand Slam e é considerado um dos maiores tenistas de todos os tempos, muito disso se deve ao seu tio e treinador Toni. É ele quem acompanha o espanhol desde seu início no esporte, em 1990. Juntos, passaram por diversos momentos de alegria e agonia, como as constantes lesões que têm atrapalhado Rafa. A última delas, nos joelhos, detectada no fim de junho ainda mantém o Touro afastado das quadras e seu retorno aos torneios ainda não tem uma data certa para ocorrer. Pode ser em novembro ou ficar apenas para 2013.

Com um tempo em seu calendário, Toni aproveitou a oportunidade para visitar o Brasil. Convidado por um patrocinador, ministrou nesta sexta-feira dois workshops para treinadores brasileiros. Antes, atendeu os principais veículos do país, em um hotel em São Paulo.

Em um bate-papo descontraído, do qual o LANCENET! participou, Toni falou sobre a relação com o sobrinho, criticou o calendário da ATP e não teve dúvidas em dizer que Roger Federer é melhor do que Nadal.

Sempre ouvimos falar que o senhor é muito exigente nos treinos. No livro “Rafa-Minha História”, o seu sobrinho diz que uma vez, quando juvenil, ganhou um torneio em Johannesburgo, regressou à Espanha e já teve de treinar no dia seguinte. Esta exigência já provocou brigas entre vocês?
Brigas, nunca. Mas há momentos em que a corda está mais tensa. E é verdade que ele sempre foi muito exigido nos treinos. Isso foi fundamental. Jogar torneios era uma exceção e não uma coisa do dia a dia. Não queria que quando ele viajasse e ganhasse uma competição fosse motivo para não seguir trabalhando. Quando ele ganhava um torneio importante, na semana seguinte colocava ele para jogar um torneio ruim, para fazê-lo ver a sua realidade e que sua rotina tinha de ser pautada pelos treinamentos. Isto lhe fez bem. Para Rafa, a importância de ganhar na Costa do Sauípe ou em Roland Garros é a mesma.

O senhor já leu o livro, no qual Rafa fala de seus métodos de trabalho e da relação entre vocês?
Não gosto de ler coisas que falam sobre mim e sobre meu sobrinho. Não preciso do livro, pois estou vivendo aquilo no dia a dia. Algumas vezes me entrevistam, apareço na televisão, mas nem me preocupo em colocar no canal.

Por causa desta forte exigência, já houve estresse na família?
Sim, porque eu sou um tipo bastante duro e, algumas vezes, meu irmão (pai do Nadal) mandava eu parar e ser mais suave. Mas a relação sempre foi boa entre nós.

O senhor comentou que não recebe salários para treinar o Rafael. Já chegou a rediscutir este tema?
Tenho negócios juntamente com o pai do Rafael. Temos uma sociedade, na qual cada um tem 50% das ações. Cuidamos de uma fábrica de vidros, de um restaurante, de imóveis... Então, deixo ele cuidar dos negócios e eu cuido do Rafael.

Muitos dos especialistas dizem que Roger Federer (ganhador de 17 Grand Slams) é o maior de todos tempos, mas no confronto direto, Nadal leva vantagem (18 vitórias e dez derrotas). Por causa disso, incomoda muito a vocês ouvir esta afirmação?
A mim não incomoda nada, absolutamente. Isto é verdade. Federer é melhor do que Rafael porque os títulos assim dizem. Mas é verdade também que jogamos em um circuito que é favorável a ele (Federer), com muitos torneios em quadra rápida. Mas este tipo de comparação deveria incomodar a Rod Laver (ganhador 11 Grand Slams), que ficou um tempo sem jogar e poderia ter levado mais títulos. Ainda que Rafa tenha um retrospecto favorável, isso não significa muita coisa. Rafa tem histórico desfavorável contra (Nikolay) Davydenko) e é muito melhor do que ele.

Mas o senhor considera mesmo o Federer o melhor da história?
Não sei, você precisa conhecer exatamente a história. Mas o Federer é o jogador que conseguiu jogar o melhor tênis. Acho que fica entre ele e o Rod Laver. Mas eu conheci muito mais o Federer. É difícil.

E como é a sua relação e a do Rafael com Federer e seus técnicos?
Minha relação com os treinadores dele é de “oi” e “tchau”, porque falamos idiomas distintos e eles são mais afastados do circuito. Não há uma relação de amizade, e sim de respeito. Federer tem 31 anos, é casado, tem duas filhas. Rafael tem 26 anos. Apesar de respeitar e admirar Federer, mantém relação mais próximas com o pessoal da sua idade como o Mónaco, David Ferrer e Feliciano López.

Quão importante é a rivalidade entre Federer e Rafael?
Para o tênis foi importante. Para nós, foi fatal, de forma ruim. Em todos os esportes uma rivalidade é boa para o espetáculo, traz torcedores, aumenta a paixão. Mas eu preferiria jogar sem o Federer. Isso teria permitido a Rafael ser número 1 mais vezes, ganhar mais torneios. Mas também prejudicou o Federer. Se ele não tivesse encontrado o Rafael, teria ganho mais uns três Roland Garros.

A lesão de Rafael e outros jogadores fará com que haja mudanças no circuito de forma rápida?
Os dirigentes não estão a favor das mudanças de calendário. Por que as Finais da ATP nunca são jogadas no saibro? Isso tira a possibilidade de Rafael ganhar mais títulos. Qualquer esporte praticado sobre superfície dura vai causar lesões e esta é uma realidade clara. Esporte é saúde, mas os esportistas de grande nível não têm saúde. Os dirigente tinham de se preocupar com isso. Mas desgraçadamente nosso esporte é o mesmo há 150 anos. A altura da rede é a mesma e os jogadores são 50 centímetros maiores. São necessárias mudanças para fazer o jogo mais vistoso. Os dirigentes deram sorte de ter jogadores tão espetaculares.

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