Ramires: 'A Seleção está distante do torcedor'

Volante voltou aos campos sábado após se recuperar de lesão

Thiago Rocha - 19/02/2012 - 10:29 Londres (ING)

Ramires (Foto: Thiago Rocha)

A opinião já é recorrente entre fãs e imprensa: a Seleção Brasileira está cada vez mais distante do torcedor. Escândalos envolvendo a cúpula da CBF, jogadores sem identificação e raros amistosos no país ajudam a piorar esse cenário.

O volante Ramires é um dos jogadores com a missão de resgatar a paixão pela Amarelinha. E nesta entrevista ao LANCENET!, concedida em Londres (ING), onde mora com a mulher Islana e o filho Davi Yuri, de 1 ano e dez meses, ele assume que a Seleção precisa recuperar a confiança da torcida. As chances cruciais para isso serão a Copa das Confederações de 2013 e o Mundial de 2014, que serão no Brasil.

Ramires voltou a atuar pelo Chelsea no sábado, no empate com o Birmingham por 1 a 1, pela Copa da Inglaterra, após ficar três semanas afastado por conta de uma lesão no joelho direito. Mesmo em grande fase na Europa (já tem oito gols na temporada), ele não descarta voltar para o Brasil se houver uma proposta tentadora. Sua preferência: o Cruzeiro.

Você está fazendo uma temporada especial com o Chelsea. O que aconteceu de diferente em relação ao ano passado?
É simples, questão da liberdade. Ano passado, não tinha tanta com (o técnico Carlo) Ancelotti e já este ano tenho mais liberdade com (Andre) Villas-Boas, até pelo fato de ele já me conhecer de Portugal e saber meu estilo, o que posso contribuir com a equipe - velocidade, força física, de poder tanto ajudar atrás como chegar na frente.

Como você jogava e como está jogando atualmente?
Jogava com três volantes, mas sempre formava uma linha de quatro no meio de campo. Você nunca podia dar o bote na frente, antecipar uma jogada, tinha sempre de esperar nessa linha. Quando a bola entrasse e chegasse ali você marcava, mas nunca saía da posição. Villas-Boas já me dá um pouco mais de liberdade. Estou jogando mais pela direita, em al-guns jogos até me colocou como ponta. Pelo Cruzeiro, jogava desta forma com Adilson (Batista), com quem meu futebol cresceu.

Hoje, o Brasil atua longe do país, a maioria dos jogadores atua no exterior há muito tempo... Você acha que a Seleção está muito distante do torcedor?
Para ser bem sincero, falando de coração não só como jogador, mas como torcedor também, a Seleção com certeza hoje está muito distante do torcedor, até pelo fato de a maioria dos jogos que faz é fora do país. Seria importante, até para a Copa. Estava conversando isso há alguns dias com David Luiz (zagueiro brasileiro do Chelsea). Seria até importante para nós, que estamos há muito tempo fora. Você não se esquece do Brasil, mas em relação ao jogo o clima é outro. Seria mais interessante agora, principalmente perto da Copa das Confederações e da Copa do Mundo, jogar um pouco mais no Brasil, estar mais perto da torcida até para que a torcida acredite mais na Seleção.

A Copa das Confederações pode ajudar nessa reaproximação?
Acho que sim, e com certeza o pessoal da CBF, o Mano, a comissão já pensaram nisso e vão fazer mais jogos no Brasil até pensando nisso, mesmo com o foco deste ano sendo a Olimpíada (de Londres). Espero que o Brasil, leve essa também

O futebol brasileiro se fortaleceu, os clubes estão repatriano e pagand salários de nível europeu. Apesar da boa fase, você voltaria?
Até falo com a minha esposa, se tivesse uma proposta muito boa do Brasil com certeza voltaria para o Brasil agora, independentemente do momento que vivo aqui. Voltaria, sim. O futebol brasileiro está muito mais visado agora, os clubes estão pagando bem, e sempre brinco que se voltasse para o Brasil voltaria para o Cruzeiro.

Mas o Cruzeiro teve um fim de ano bem conturbado...
Sofri bastante. Até o último jogo (do Campeonato Brasileiro 2011), pessoal ficou botando pilha... Aqui tem atleticano e ficavam falando: "Pô, o Cruzeirinho vai cair", e eu respondia: "Não vai não!". E acabou que não caiu. É triste. Eu passei por lá, sei da situação. O Cruzeiro sempre teve salário em dia, nunca teve problema com dívida como jogador, mas agora está nesse momento.

Tem alguma coisa no futebol inglês que você gostaria de ver no Brasil?
Gostaria de ver no Brasil estádios iguais aos daqui. Todos benfeitinhos, cada clube com o seu, sem alambrado, do jeito que é aqui, mas não sei se daria certo, iam invadir o campo (risos). No Brasil, como tem bastante torcida organizada, é complicado. Você perde uim clássico e aí, sem alambrado, apanha de todo mundo (risos).

Na folga, o que você costuma fazer em Londres?
Depende. A gente não sai muito, o frio aqui é... (risos). Às vezes saio para treinar, como em casa está quente coloco só um agasalho, quando chego no elevador tenho de voltar para pegar outro casaco. Outro dia, eu e minha esposa fomos inventar de ir num parque e chegou lá fui com uma blusa de frio fina. Foi caindo a tarde e veio um frio que eu não aguentava. Eu falava: "Amor, quero ir embora para casa porque está doendo esse frio", e ela veio brava, falou que eu levar mais casaco da próxima vez.

Adaptou-se ao novo idioma?
Tive de fazer umas aulas para tirar o visto, mas peguei um professor inglês mesmo, que não falava português. Então para mim foi um pouco difícil. Quando fiz a prova, queria arrumar um professor, mas não consegui ainda e estou parado. Fico conversando com as pessoas no clube, até entendo algumas coisas, mas quando não entendo, pergunto, entendo um pedaço, não entendo outro, e a gente vai levando (risos).

E com a alimentação?
Não como no clube. A comida é boa, mas pode me levar para qualquer lugar do mundo que quero arroz e feijão. todo dia tenho de comer meu arrozinho com feijão. Não dá. Um dia ou outro come algo diferente, mas arroz e feijão, sempre.

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