Leoz: 'Temos de ser mais drásticos com a violência'

Presidente da Conmebol concede entrevista exclusiva. Leia

LEO BURLÁ - 29/10/2010 - 08:59

Nicolas Leoz (Crédito: EFE)

Nicolás Leoz, presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), chega ao seu escritório vestido de maneira informal. Sentado à poltrona de couro verde, bebe duas xícaras de café com leite e devora alguns biscoitos.

A fala mansa e as mãos trêmulas não sugerem a força com que o mandachuva comanda o futebol da América do Sul por 24 anos. Apesar da visível fragilidade física, não parece disposto a abrir espaço na presidência da Conmebol. O paraguaio de 82 anos já avisou:

– Só preciso saber se o chefe supremo (Deus) e os presidentes das confederações vão querer que eu permaneça no cargo.

Ao que tudo indica, Leoz ficará, no mínimo, até 2015.

O encontro ocorreu antes dos escândalos de compra de votos na Fifa tornarem-se públicos. Confira a entrevista com um dos mais poderosos e anônimos dirigentes do futebol mundial.

LANCENET: O senhor pensa em ficar por mais um mandato na presidência da Conmebol?
Já tenho uma carta assinada pelos dez presidentes que me convidaram a continuar até 2015. Deus precisa me dar saúde para seguir.

LNET!: Por que o senhor acha que há tão pouca renovação nos cargos diretivos no esporte?
Esta é uma leitura histórica, isto vai seguir ocorrendo. As gerações vão sendo sucedidas, assim como os homens. Alguns demoram mais do que outros. São etapas que vão se produzindo. E assim segue a roda.  

LNET!: Não seria saudável a chegada de novas lideranças e ideias?
Você é jornalista, um dia você será substituído. Você é brilhante, mas um dia vai aparecer outro que vai superá-lo. Isto ocorre em todas as atividades humanas.

LNET!:Ainda não surgiu ninguém que poderia tê-lo sucedido à altura na presidência da Conmebol?
Todos os países sul-americanos têm grandes dirigentes. Há sempre muita gente querendo surgir.

LNET!: O apoio de todos os países da Conmebol para 2014 significa que você e todas as confederações apoiam a candidatura de Ricardo Teixeira à presidência da Fifa?
Não tocamos neste assunto, mas claro que quero um sul-americano. Parece que o sul-coreano (Chung Mong Joon) vai ser candidato, mas aprovo o nome do Ricardo. Depende de que ele lance sua candidatura. Imagine você se não gostaria de um sul-americano à frente da Fifa?

LNET!: O senhor tem acompanhado de perto a organização para a Copa do Mundo de 2014?
Estão trabalhando muito bem, há muito apoio do governo. A imprensa e o público apoiam muito. Será um Mundial maravilhoso.

LNET!: Mas há muita preocupação com atrasos em obras de estádios e de infraestrutura no Brasil...
Todos estão preocupados, mas é uma preocupação positiva.

LNET!: O senhor concorda que algumas das exigências da Fifa são um pouco descabidas e exageradas?
Mas a infraestrutura ao redor melhorará muito. Isto são proveitos que o Brasil terá com a Copa. Muitas coisas importantes ficarão. Foz do Iguaçu (no Paraná), por exemplo, se prepara para receber 2 milhões de pessoas ao longo da Copa.

LNET!: E as vagas sul-americanas na Copa do Mundo de 2014? A Conmebol teme perder um posto pelo fato do Brasil ser anfitrião?
Vamos lutar, temos convicção de que temos direito a quatro vagas e meia (quatro via Eliminatórias e uma disputada na repescagem), independentemente de o Brasil ser anfitrião. Na África, Alemanha e  Japão/Coréia foi assim.

LNET!: Vamos falar de Libertadores. Não ficaria constrangido caso o Chivas (MEX) tivesse ganho a final contra o Internacional?
Constrangido, não. Mas não queria que tivesse ganho o Chivas, pois sou sul-americano. De qualquer maneira, o Inter estaria em Abu Dhabi. Mas não seria a mesma coisa.

LNET!: Até quando teremos de conviver com cenas de violência na Libertadores? As punições aos clubes não são muito frouxas?
(Faz longa pausa) A Fifa e a Conmebol têm comissões anti-violência. Existe regulamento de aplicação de sanções, mas pode ser que tenhamos de ser mais drásticos em alguns casos. Estou de acordo.

LNET!: O senhor não acha que há muitos campos em péssimo estado na América do Sul?
Há 20 anos era pior. Os campos se-rão espetaculares na Copa de 2014.

LNET!: Por que não pode mais haver final entre clubes do mesmo país na Copa Libertadores?
Os presidentes entenderam que não era o mais conveniente. Se o Brasil se sente lesado, o país tem os meios de pedir que isto mude.

LNET!: Já pensou na hipótese de a Libertadores e a Sul-Americana caminharem simultaneamente?
Não me desgosta esta ideia, pode ser inteiramente factível. Mas há ajustes que precisariam ser feitos. Isto nunca foi votado, mas já conversei em particular com alguns presidentes. Os times da Libertadores não poderiam disputar a Sul-Americana, teria de ser ajeitado.

LNET!: Quando clubes dos Estados Unidos  jogarão a Libertadores?
Faz tempo que queremos, mas não depende só da Conmebol. Trouxemos o México para a Copa América, depois chegamos a um acordo com a Concacaf para que o campeão jogasse junto a um convidado da Conmebol. O México tem bom futebol e poderio econômico.

LNET!: A Concacaf e a Conmebol não poderiam se fundir?
Queremos isso, mas não depende só do desejo da Conmebol. Queria fazer uma Copa América entre todos estes países. Fazer uma Libertadores com equipes americanas. O nível está subindo no futebol americano. A porta está aberta.

LNET!:Em que estágio estão estas negociações com a Concacaf?
Caminhando lentamente (risos).

LNET!:O senhor não crê que nossos clubes têm uma representação muito reduzida na Conmebol?
Cada país tem um representante, Brasil tem dois. Ricardo Teixeira e Marco Polo Del Nero (presidente da FPF) têm voz e voto na Conmebol.

LNET!:Mas os clubes não poderiam ter uma cadeira fixa de representantes eleitos por eles próprios?
Não me desagrada a ideia. Depende dos presidentes das federações, mas garanto que não existe  membro algum no comitê executivo que não brigue por seus países.

LNET!: O senhor é a favor da implantação de tecnologia no auxílio à arbitragem?
Não é um tema fácil, mas acho que, para mim, faria o futebol perder sua essência. A tecnologia não está no futebol, não funcionaria, mas pode ser que me equivoque.

LNET!: O senhor é a favor da adequação ao calendário europeu?
Não há nenhum problema. Se os sul-americanos acreditarem que isto é o melhor, que mudem. Cada federação analisa suas necessidades.

LNET!: Em 24 anos, qual foi a sua maior contribuição ao futebol?
Trabalhar com as pessoas, buscar coisas bonitas para os países e estabelecer diálogo permanente.

LNET!: Quais são seus maiores prazeres na vida?
Ver as pessoas, ter amigos e assistir aos jogos do Libertad.

LNET!: Esta vida de presidente da Conmebol não cansa nunca?
Cansa muito, não tenho mais a  sua juventude.

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