Jeca: a luta não acabou

Vazio ainda é sentido um mês após a morte de Jefferson Gonçalo

Maurício Oliveira - 10/11/2010 - 10:46 Enviado especial a Salto, Itu e Sorocaba (SP)

Luciano Almeida (Crédito: Ari Ferreira)

Pouco mais de um mês depois da morte de Jefferson Gonçalo, aos 39 anos, a família de Jeca, como era conhecido, tenta conviver com as lembranças do pugilista. Ele continua presente em todos os lugares.

Paula Gonçalves, a viúva, de 37 anos, o vê na mesa da cozinha de casa ou em um dos bancos da segunda fila da igreja. A mãe, Vilma, 66, em crise depressiva, de vez em quando diz a familiares que o filho está viajando. Erick Ramos, um dos pupilos, ainda ouve conselhos.

Jeca morreu no dia 6 de outubro, aos 39 anos, no Hospital Samaritano de Sorocaba, em decorrência de lesões no cérebro. Passou quatro dias internado, após passar mal e desmaiar no ringue montado no Ginásio João Sebastião Ferraro, em Salto (a 104km da capital São Paulo), aos 29 segundos do quinto round da luta contra Ismael Bueno, pela categoria meio-médio, em evento promovido por ele, no dia 2.

– A ficha ainda não caiu. Acho que nem para mim nem para ninguém que convivia com ele – diz o irmão Natal Gonçalo Neto, 41.

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É ele quem tenta concretizar o último desejo de Jefferson: concluir a reforma da casa onde moram Paula e os filhos Jaqueline, 17, e Jonathan, 15. O sonho de Jeca baseava-se, segundo Natal, em promessa que o irmão ouviu antes de morrer.

– Ele não disse quem tinha feito e o que era a promessa. Só havia comentado que ia terminar a casa em abril. Ficou empolgado com o que prometeram – lembra Natal.

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A parede de frente da casa, em Salto – vizinha a Itu, cidade da mãe e do irmão – está apenas com reboco e parte dela é encoberta por um portão de dois tapumes apodrecidos. Abatida, Paula não quis receber a equipe de reportagem na casa, mas deu entrevista por uma hora na vizinha.

Como Natal, ela quer que a Liga Paulista de Boxe, da qual Jeca era filiado, banque a casa porque o pugilista participou de dezenas de lutas promovidas pela Liga. O presidente da entidade, Reinaldo Carrera, diz que pode ajudar, mas indicando caminhos. Alega que a Liga não tem dinheiro e não recebe verbas do governo, como a Confederação Brasileira de Boxe, filiada ao Comitê Olímpico.

Jefferson, como quase todos os pugilistas profissionais e amadores no país, que lutam mais por paixão do que por dinheiro, não tinha seguro para a luta. O assunto foi discutido recentemente em convenção do Conselho Mundial de Boxe. Seguro só em casos de disputa por título, com milhões de dólares envolvidos. Não era o caso de Jeca. E, provavelmente, não será o dos alunos que continuarão frequentando a academia em que ele dava aulas.

Dia 2 de outubro
A luta
Jefferson Gonçalo x Ismael Bueno, pela categoria meio-médio, era um dos combates previstos para o evento promovido pela própria empresa de Jeca, no Ginásio João Sebastião Ferraro, em Salto (a 104km da capital São Paulo). Alunos da academia em que ele trabalhava participaram de outras lutas.

Quinto round
Aos 29 segundos do quinto round, Jefferson passou mal e, sem ser atingido, teve um leve desmaio. Ele retomou a consciência ainda no ringue e recebeu atendimento médico. A luta foi interrompida.

Hospital
Jeca foi levado ao Hospital Monte Serrat, próximo ao ginásio. Em seguida, foi encaminhado para o Hospital Samaritano de Sorocaba para uma bateria de exames.

Cirurgia
Jeca havia sofrido traumatismo encé-falo craniano. A cirurgia para retirada de parte do cérebro durou cinco ho-ras e ele entrou em coma induzido.

Dia 6 de outubro
Morte
Quatro dias depois, foi anunciada a morte encefálica do pugilista. A família optou por doar os órgãos.

Bate-Bola com Ismael Bueno (Pugilista que enfrentou Jefferson Gonçalo)

L!: Logo após a morte, você disse que pensava em parar. Refletiu mais a respeito?
Voltei a treinar, mas não consegui totalmente, não. Estou devargazinho....

L!: Você voltou a falar com a família, depois do enterro?
Não, não consegui.

L!: E como vê hoje, um mês depois do que aconteceu?
Não me aprofundei sobre o assunto, não. Acredito que não mudou muita coisa. Não estou a par de lutas, como estão as coisas lá... Dei uma parada em tudo.

L!: E a sua cabeça hoje?
Não está 100%, não. De vez em quando bate o que aconteceu. A gente passa na rua, as pessoas vêm falar do acontecimento... Na hora, vem o lance, entendeu?

L!: Aos poucos você vai superar o que aconteceu...
Acredito que sim.

Colaboraram Ivo Felipe e Luiz Paulo Montes

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