Homens do Batalhão de Choque cercam Aldeia Maracanã e índios prometem resistir

Aldeia indígena fica no local, que será removido para as obras de modernização do Maracanã para a Copa das Confederações-2013 e Copa do Mundo-2014

Alexandre Braz - 12/01/2013 - 10:25 Rio de Janeiro (RJ)

Homens do Batalhão de Choque no Museu do Índio (Foto: apn.org.br)

Homens do Batalhão de Choque da Polícia Militar cercam desde a manhã deste sábado o antigo Museu do Índio, no entorno do Maracanã, que será demolido para a construção de um estacionamento, como parte das obras de modernização do estádio para a Copa do Mundo-2014 e a Copa das Confederações-2013. Índios estão no local temendo que os policiais iniciem a desocupação.

Na localidade há uma aldeia indígena que terá de ser removida. A demolição do prédio vai ficar a cargo da empresa vencedora da licitação, Compec Construções e Locações, que receberá R$ 586.058,95 pelo serviço. O Governo do Rio, porém, precisa de um mandado judicial da Justiça Federal para retirar os cerca de 150 índios que hoje moram no local, renomeado de Aldeia Maracanã.

Índios fazem protesto em frente ao Maracanã

Membros da Polícia Federal também estão no local e conversaram com policiais militares. Há oito viaturas do Batalhão de Choque da PM no entorno do antigo Museu do Índio e três viaturas da Polícia Militar.

Por volta de 12h, Ícaro Moreno, presidente da Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro (Emop), apareceu no local para falar com os policiais e gerou uma correria. O cacique Carlos Tukano tentou contato com Ícaro, e os PMs impediram a aproximação. O índio então correu para dentro do canteiro de obras externo do estádio, e depois voltou.

- Falei com o secretário-geral das obras do Maracanã por telefone, disse que quero uma reunião aberta e ele prometeu que vai resolver o nosso problema. Também quero falar com o governador (Sérgio Cabral) e com o prefeito (Eduardo Paes). Queremos continuar no prédio - disse o cacique, que revelou que a reunião deve acontecer às 14h.

Além dos índios e dos policiais, muitos simpatizantes do movimento dos índios e diversos veículos de imprensa, inclusive internacionais, estão no local, que é tomado por um clima de tensão. O cacique Urutal Guajajara, de uma das etnias indígenas que ocupam o lugar, disse que os índios estão prontos para resistir a uma possível ordem de desocupação, ainda não confirmada pelas autoridades.

- O Batalhão chegou aqui por volta das 5h e disseram que receberam uma ordem para vir para o local e que estão aguardando uma ordem judicial. Dependendo da ordem que vier, nós vamos resistir. O Estado está atropelando a constituição federal. É uma ação que fere a nossa constituição. Nós estamos aqui e somos defensores de um patrimônio da união - afirmou o cacique.

- Cerca de 150 pessoas estão lá dentro prontas para defender nossos direitos - completou.

O defensor público federal Daniel Macedo disse que qualquer ação dos policiais sem um mandado judicial de imissão de posse será ilegal e os policiais podem responder por abuso de autoridade. Ele explicou a situação.

- Foi ajuizada uma ação judicial de manutenção de posse. A liminar foi cassada pela presidente do Tribunal Regional Federal. No entanto, o fato de a liminar ter sido cassada não determina a entrada imediata da Polícia Militar nesse local. É necessária a vinda de um mandado de imissão de posse. Pelo que parece, a Polícia Militar não está com esse mandado. Qualquer atitude da PM sem ele será ilegal. Os índios estão propensos a resistir corporalmente, embora não seja essa uma orientação da defensoria pública.

O deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) foi ao local para dialogar com os índios e os policiais. Adversário do prefeito Eduardo Paes nas últimas eleições municipais e opositor à derrubada do antigo Museu do Índio, o parlamentar mostrou um discurso pessimista sobre a situação dos índios.

- A Polícia Federal tem clareza de que a Polícia Militar não pode entrar apenas com a liminar que foi concedida há quase dois meses. Porém, o juiz de plantão pode conceder esse mandado permitindo à polícia que entre no prédio. Se isso acontecer, terá que ter muito cuidado e dialogar bastante porque tem muitas vidas aí dentro e é preciso preservá-las, porque os índios vão querer revidar - disse Freixo.

- Sou contrário e essa demolição do prédio é um absurdo, pelo valor histórico e cultural que ele tem. Mas agora o importante é o bom senso e preservar as vidas. Se você perguntar a qualquer torcedor estrangeiro que venha assistir a um jogo se ele quer ver um museu com tanta história ser demolido para se fazer um shopping ou um estacionamento, ele vai te dizer que não quer e que é um absurdo isso acontecer - completou o parlamentar.

O tenente comandante da operação que está no local não confirma que tipo de ação vai acontecer e que segue aguardando uma ordem judicial. Recentemente, o Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural (CMPC) se opôs à demolição do antigo Museu do Índio, ressaltando o valor arquitetônico do prédio. Está marcada para este domingo no local a realização do Congresso Nacional da Frente Internacional dos Sem Teto (Fist).

A reforma do Maracanã deve ser concluída em sua totalidade no dia 15 de abril, data limite estipulada pela Fifa. Cobertura, gramado, cadeiras e toda parte interna estarão prontos em 28 de fevereiro. O estádio receberá três jogos da Copa das Confederações e sete da Copa do Mundo de 2014, inclusive a final de ambas competições.

*Atualizado às 13h53

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