Cassano e Balotelli: dupla volta por cima

Dupla enfrentou dramas antes da final da Eurocopa

Leonardo Pereira - 01/07/2012 - 06:03 Kiev (UCR)

Cassano e Balotelli (Foto: Christof Stache/AFP)

Cassano aparece pelo lado esquerdo do ataque e cruza para Balotelli abrir o marcador na vitória da Azzurra sobre a Alemanha. Mais do que o gol ou a classificação italiana para a final da Eurocopa, o lance da última quinta-feira simbolizou o encontro de personagens marcados pela desconfiança e duas histórias de grande superação.

Oito meses antes de começar a jogada, Cassano foi acometido por um AVC (acidente vascular cerebral) que quase o tirou, definitivamente, dos gramados.

O atacante do Milan foi internado durante algumas semanas e precisou enfrentar uma delicada cirurgia no coração para poder vencer a batalha. Ele retornou, como reserva do Rossonero, somente em abril.

O drama de Balotelli começou bem antes do companheiro de ataque. Logo que nasceu, o “Super Mário” foi abandonado pelos pais, imigrantes ganenses, num hospital de Brescia, onde foi criado por médicos até os dois anos de idade.

A infância traumática refletiu na personalidade: o anti-herói do futebol coleciona inúmeros problemas extracampo, como multas de trânsitos e até mesmo tentativa de atear fogo na própria casa.

Instabilidade

Não é sempre que a dupla Balotelli-Cassano tem uma perfeita sintonia como na vitória sobre a Alemanha, pela semifinal da Eurocopa.

– A probabilidade de os dois estarem num ótimo dia é pequena. Quando um joga bem, o outro não acompanha. Que tenham a mesma
sorte de quinta-feira – opinou o jornalista italiano Enzo Palladini.

CASSANO

O susto

A delegação do Milan voltava de uma partida pelo Campeonato Italiano, em Roma, quando o atacante começou a passar mal e apresentar muita dificuldade de se expressar.

Angústia

Cassano foi internado num hospital de Milão. Os médicos do Milan demoraram cerca de três dias para revelar que o atacante teve um AVC e teria de passar por uma cirurgia no coração para evitar danos maiores. Aos poucos, porém, ele foi recuperando a forma física até voltar aos gramados.

Na Eurocopa

Apesar de titular desde o início da competição, vem sendo substituído com frequência. Foi autor de uma assistência para Balotelli durante a vitória sobre a Alemanha na semifinal.

Com a palavra

Massimo Basille - Editor do Corriere dello Sport (ITA)

Cassano é um iluminado

Começou mal e foi para a reserva. Ao marcar contra a Irlanda, foi contido pelos companheiros. Queria desabafar. Voltou ao time titular nas quartas de final. Na semifinal, eliminou a Alemanha com dois gols. Por ser um jogador negro, é alvo constante de ataques racistas.

Cassano teve um problema muito sério. Ele poderia ter morrido. Antes da Eurocopa havia uma dúvida legítima sobre a condição do atacante. Hoje, parece que ele nunca teve nada. O jogador do Milan tem uma qualidade técnica superior a qualquer atacante do país. A grande dúvida era encontrar alguém para substituí-lo porque, atleticamente, ele só aguenta de 60 a 70 minutos. Durante a Euro, a Itália teve a sorte de encontrar o jovem Diamanti. A história do iluminado Cassano teve um pouco de loucura, mas foi algo grandioso. Um enorme presente divino.

BALOTELLI

Filho de imigrantes

Embora tenha nascido na Sicília, somente aos 18 anos recebeu a cidadania italiana. Além disso, foi abandonado pelos pais biológicos (um casal de Gana).

Confusões extracampo

A lista é imensa: expulso de danceterias, teve o carro danificado, foi multado várias vezes, presenteou um mendigo com R$ 2,5 mil ao sair de um cassino e destruiu o próprio banheiro com fogos de artifício.

Na Eurocopa

Começou mal e foi para a reserva. Ao marcar contra a Irlanda, foi contido pelos companheiros. Queria desabafar. Voltou ao time titular nas quartas de final. Na semifinal, eliminou a Alemanha com dois gols. Por ser um jogador negro, é alvo constante de ataques racistas.

Com a palavra

Enzo Palladini - Editor da emissora Mediaset (ITA)

Cesare Prandelli foi um pai para Balotelli

Balotelli precisava ouvir um “não“. Antes, só recebia tapinhas nas costas de pessoas que toleravam suas loucuras e diziam que “estava tudo bem“. O técnico Cesare Prandelli foi um grande pai ao colocá-lo no banco de reservas depois da partida contra a Espanha, na primeira fase. O jogador, como todos os jovens, precisava muito de uma lição. Com Donadoni, foi diferente. Pela idade (48 anos), o antigo treinador da Itália era o irmão mais velho de Balotelli. Não tinha autoridade sobre ele. Hoje, todos pensam que é possível domar este leão. Pelo menos, torcemos muito por isso.

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