André Villas-Boas: ‘Gostaria de treinar um time brasileiro’

Em entrevista exclusiva ao LANCE!Net, treinador português do Tottenham fala sobre sua carreira e revela desejo de trabalhar no Brasil

Bernardo Cruz e Thiago Correia - 30/12/2012 - 08:00

André Villas-Boas - Tottenham (Foto: Glyn Kirk/AFP)

Após aprender com alguns dos treinadores mais renomados do futebol, como Bobby Robson e José Mourinho, André Villas-Boas resolveu se aventurar uma carreira-solo. Destacou-se na Académica, aonde livrou o clube do rebaixamento, e foi para o Porto, time de seu coração desde a infância, e chegou ao Tottenham, no qual faz bom trabalho.

O que mais se falou na época do Porto foi sobre sua idade: "Como poderia um técnico de 32 anos se dar bem em um gigante?". Um ano depois, ele tinha levado o Português invicto, a Liga Europa e um convite para treinar o poderoso Chelsea. Neste bate-papo com o LANCE!Net, Villas-Boas fala sobre tudo, até na possibilidade de trabalhar no Brasil. O único assunto que o treinador (visto como um dos mais promissores do mundo) não quis falar foi sobre o dono do Chelsea, o magnata russo Roman Abramovich.

Como você avalia o momento do Tottenham?
Começou um pouco devagar, depois veio uma série boa. Mas não quero dizer nada, a Premier League é muito imprevisível,  muitas vezes os primeiros perdem para os últimos, dentro ou fora de casa. Não dá para saber nada, jogase com a emoção, com velocidade e intensidade, e por isso há surpresas. Mas estamos bem e temos de continuar assim.

Qual foi a meta traçada para a temporada?
O objetivo principal é a vaga na Liga dos Campeões. O Tottenham foi o quarto colocado na Premier League passada, mas perdeu o acesso pela vitória do Chelsea na Liga dos Campeões. O Tottenham é um clube estruturado, com um novo centro esportivo, ótimas condições, um dos poucos que não tem dívidas, é estável e muito organizado. Então tenho grandes expectativas. O Tottenham construirá um novo estádio, e quando um clube desta envergadura cresce, confia nos jogadores e treinadores, a exigência aumenta e é importante que esperem isso de nós.

A boa base formada no ano passado ajudou?
A equipe já é diferente, perdemos duas peças muito importantes (Van der Vaart e Modric) e também fomos afetados por lesões, jogadores titulares de fora por três meses (Ekotto, Parker e Dawson). Temos uma mistura de jogadores novos, outros voltando de empréstimo com muita vontade, construímos o que queríamos no mercado, e conseguimos nos estabilizar.

Fale-nos de seu início. Como foi o primeiro contato com Bobby Robson (ex-técnico da Inglaterra, do Porto e do Barcelona)?
Ele morava no meu prédio. Eu era portista, comecei a falar com ele sobre jogadores, ele disse muito carinhosamente que abriria as portas dos treinos. Começou a nascer a paixão sobre o jogo, sobre as táticas. Isso foi decisivo para a minha função, comecei cursos, a treinar os jovens. Tempos que eu recordo com muito carinho.

Villas-Boas foi técnico da Académica, do Porto e do Chelsea (Foto: Glyin Kirk/AFP)



Como foi o trabalho durante vários anos com José Mourinho?
Estamos falando daquele que talvez seja o melhor de todos os tempos. Foi uma experiência única. É muito difícil ter acesso a alguém com tanto profissionalismo, dedicação e conhecimento de jogo. Felizmente ele viu em mim um bom profissional no campo da observação dos jogos e da  preparação dos adversários. Foi um privilégio trabalhar com ele, até pela metodologia de treino. Foram sete anos juntos nos maiores clubes do mundo.

A comparação com Mourinho te atrapalhou no início?
Nem ajudou, nem atrapalhou. As comparações são feitas por quem observa de fora. Andamos para a frente com nossos trabalhos com  profissionalismo e não estamos preocupados em parecer com alguém ou trabalhar com alguém. Podem ter formas de liderar que alguém de fora possa ver semelhanças por causa da época que estava com ele. Mas não por imitação. E nem estou preocupado com isso.

As críticas à sua juventude atrapalharam?
Eu não tive problemas, eu sou jovem, mas comecei cedo, tudo veio prematuramente, o treinador tem que ser visto pelas ideais e capacidades de vender as ideias, e o fator decisivo de trabalhar com gente motivada para aceitar as ideias, que tenha talento e que consiga atingir objetivos, e tive muita sorte na carreira, a cada passo tive sorte de encontrar gente dessa natureza, gente com muita qualidade, fui beneficiado com tudo isso, relativamente às críticas com a idade, há melhores exemplos que eu que também não começaram como profissionais e triunfaram, e no fundo o que é importante é a relação humana, capacidade de motivar e incutir no ser humano a ideia.

Você vê como uma boa a atual safra de treinadores portugueses, como Vítor Pereira, Domingos Paciência e outros?
Este é um momento decisivo na formação do treinador português. O efeito Mourinho criou um bom exemplo nessa nova geração: muita gente tenta estudar o que ele faz. E isso pode irradiar abrindo um caminho para o treinador português no exterior. Temos exemplos históricos de sucesso. O povo português facilmente se adapta, sai para o mundo, é uma cultura imigrante, de partir à conquista desde os séculos passados, é um hábito muito nosso. Temos a facilidade de aprender línguas, somos um produto de fácil exportação. E no futebol, pelo talento que temos nas camadas jovens, o treinador tem criado uma escola muito boa pelo mundo.

  
André Villas-Boas (Foto: Ben Stansall/AFP)

Qual foi o segredo da passagem vitoriosa no Porto?
Uma conjugação de fatores em que caiu tudo no seu lugar. O Porto tinha terminado em terceiro, tinha muita vontade de voltar a ganhar, não só os jogadores, mas os diretores também. E com a minha chegada, cresceu a vontade de triunfar. O Campeonato Português, hoje, é marcado pela competitividade entre Porto e Benfica. E quando o Benfica é campeão, no Porto gera uma revolta. Usamos isso para trabalhar mais e ganhamos. E lá tudo é muito profissional. É raro achar um clube tão bem organizado como o Porto.

Seu sucesso no Porto o levou para o Chelsea. Mas as coisas não foram bem. O que faltou por lá?
Não conseguimos a estabilidade de resultados que nos permitisse ter confiança. No início não fomos fortes, com altos e baixos. Em outubro de 2011 tivemos duas derrotas seguidas e o efeito foi ruim, intranquilizou. Os objetivos eram a qualificação na Liga, lutar pelos títulos. E quando eu saí, todos os cenários eram possíveis. E o time acabou levando a Liga dos Campeões. Daí a minha frustração.

Poderia ter ficado mais no Porto?
Penso que não, nem faço essa reflexão, há oportunidades profissionais que tem que ser aproveitadas, penso que era boa e não olho para trás.

Ser técnico da Seleção Portuguesa é um objetivo para o futuro?
Acho difícil. Tenho o máximo respeito do que é representar o país. Obviamente que seria um orgulho para mim, mas não é algo que faz parte das minhas ambições de carreira.

Trabalharia no Brasil?
Sempre gostei da ideia de experimentar campeonatos diferentes, nunca escondi que gostaria de trabalhar em um lugar com excelente nível técnico, como o Brasil. Mas isso é no futuro. Agora estou totalmente concentrado no Tottenham. Estou muito feliz e determinado em continuar progredindo e alcançar os objetivos.

Como vê o trabalho de Pinto da Costa, presidente do Porto?
É um clube muito especial, há um conceito de instituição muito forte. Sente-se que ninguém é mais importante que o clube, isso está muito enraizado na cultura. Com o passar dos anos, o Porto ganhou prestígiointernacional, permitiu criar uma estrutura muito forte. Diria que ele lançou-se para o futuro antes de outros concorrentes. É o clube mais bem organizado que já passei.

O Tottenham teve interesse e ainda tem em Willian (do Shakhtar Donetsk) e em Leandro Damião?
Nós tivemos em contato com o Willian, e foi um dos jogadores que tivemos interessados, gosto do trabalho dele, mas tivemos um ponto que tivemos que parar, não conseguimos atingir o valor, e quando é assim, fica difícil, saímos do negócio. Com certeza, quando tiver menos tempo de contrato, não quer dizer que vamos falar com o Shakhtar, é um clube difícil de negociar, sabe o valor do Willian, não precisa de dinheiro, não precisa ajudar, pode manter os jogadores. O Leandro teve uma Olimpíada espetacular, há muitos jogadores interessantes, há também muitos jogadores bons aqui, estamos muito satisfeitos, mas obviamente que seguimos os melhores jogadores e jovens, e o Leandro entra nesse perfil, e o Tottenham está nesse perfil, atento à progressão, depois das Olimpíadas teve lesões, pode não ter jogado tanto, se estiver nos limites do Tottenham, está sempre na nossa lista.

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