Zé Roberto, ao L!Net: 'O camisa 10 está em extinção no futebol mundial'

Apoiador do Grêmio ainda fala sobre a sua obsessão por conquistar a Libertadores, a falta de profissionalismo dos jogadores no Brasil, Seleção Brasileira e Pelé x Neymar

Bernardo Cruz e Luiz Signor - 25/02/2013 - 07:45 Rio de Janeiro (RJ)

Zé Roberto em vitória do Grêmio sobre Fluminense (Foto: Lucas Uebel/TXT Assessoria)

Zé Roberto é um dos raros exemplos de atletas – como ele mesmo se define – que seguem atuando em alto nível mesmo com uma idade já avançada. Aos 38 anos, o "Homem de Ferro" do Grêmio, apelido que ganhou de Pará, seu companheiro de time, também é um típico camisa 10, esbanja qualidade e uma forma física invejável. Camisa 10 que, na sua opinião, está em extinção no futebol mundial.

Em entrevista exclusiva concedida ao LANCE!Net na última sexta-feira, o capitão do Grêmio e peça chave do Tricolor na luta pelo tri da Libertadores, competição que é tratada como uma obsessão por ele, ainda lamentou a falta de profissionalismo de grande parte dos jogadores que atuam no Brasil, falou sobre o atual momento da Seleção Brasileira novamente sendo comandada por Felipão e ainda deu razão para Pelé nas críticas do Rei à Neymar.

LANCE!Net: Antes da fase de grupos da Libertadores começar, muitos falavam que Fluminense e Grêmio teriam facilidade para avançar, o que não se mostrou uma verdade...
É natural essa mudança de opinião. Comparando a tradição das equipes, é claro que todo mundo iria apontar Fluminense e Grêmio como os grandes favoritos. O primeiro jogo sempre tem uma ansiedade, uma euforia, até porque o Grêmio foi um time que fez grandes contratações. Então, espera-se muito do Grêmio. Nós acabamos estreando mal, mas logo depois conseguimos reagir fazendo um grande jogo contra um concorrente direto e, pela nova postura que mostramos, vamos lutar por esse título.

LNet!: Essa mudança de postura foi o grande diferencial para o Grêmio se recuperar de uma surpreendente derrota e golear o Fluminense? O drama vivido pelo Barcos gerou uma mobilização ainda maior entre os jogadores?
Nós, de uma forma muito rápida, entendemos que Libertadores é uma competição totalmente diferente de Gauchão, Brasileiro e Copa do Brasil, por exemplo. Através da derrota, percebemos que tínhamos de mudar a postura contra o Fluminense. E claro que essa situação, esse momento difícil pelo qual passa o Barcos com certeza nos incentivou ainda mais.

LNet!: A vasta bagagem dos principais jogadores do Grêmio como Dida, Cris, Elano e você é a principal qualidade do Grêmio para a conquista da Libertadores?
Quando se forma uma equipe que quer ser vencedora, essa equipe tem de ter diversos fatores. Você mescla juventude com experiência. Hoje, o Grêmio é uma equipe que manteve a base do ano passado e fez grandes contratações. Nesse conjunto pesa muito você ter jogadores que têm bagagem. Esses jogadores trazem um peso para o time, assim como a chegada de outros, como Barcos, Welliton, Adriano e Vargas. Mas não podemos ter um bom time no papel, temos de corresponder na prática também. Esse é o desafio.

LNet!: Os grandes favoritos ao título da Libertadores são os times brasileiros para você? E podemos colocar o Corinthians nesse grupo após a punição sofrida (não poder jogar mais com a sua torcida)?
Falando da questão do Corinthians, é claro que a torcida do Corinthians tem um peso muito grande, é uma torcida que faz a diferença e fez a diferença no ano passado na disputa da Libertadores e no Mundial. Mas o futebol é jogado dentro de campo. Claro que o time vai sentir a falta da torcida, mas o Corinthians segue muito forte. Acho que os candidatos ao título da Libertadores ao lado do Grêmio são os clubes brasileiros sim. São Paulo, o próprio Corinthians e Atlético-MG fizeram grandes contratações e o Fluminense manteve a base. Não podemos esquecer do Palmeiras, que, tem muita tradição.

Zé Roberto ainda não se lesionou desde que chegou ao Grêmio (Foto: Lucas Uebel/Grêmio)

LNet!: A Libertadores mexe com o Luxemburgo e você, por exemplo, de uma maneira diferente, já que vocês ainda buscam esse título?
Particularmente para mim sim. É um título que falta na minha carreira, embora eu tenha alguns. Mas a Libertadores é um título de muita expressão. Todo atleta profissional tem o pensamento de vencer. E o meu não é diferente. Vim para o Grêmio, pois o Grêmio tinha esse planejamento, esse projeto de voltar à Libertadores e hoje eu faço parte desse projeto. Cada jogo, cada possibilidade que tenho de viver, de disputar essa competição, me dedico ao máximo para que possa conquistar esse título, que, ao mesmo tempo é muito importante é difícil.

LNet!: Vocês jogadores preferem atuar na Arena, que vem dando muita dor de cabeça para o Grêmio, ou no Olímpico?
Sobre a avalanche tem duas questões. A primeira é preservar vidas. Graças a Deus o que aconteceu contra a LDU não foi pior, não houve mortes. Agora tem outro lado. É claro que a avalanche faz falta para nós. É algo que faz parte do clube. Jogar hoje sem a avalanche é a mesma coisa de um peixe estar fora da água. E ainda tem o gramado, que tem prejudicado. Acredito que nesse tempo antes do próximo jogo (Caracas, no dia 5 de março) será definido em qual estádio jogaremos. Penso que prevalecerá o bom senso, o que é o melhor para o time do Grêmio. E o que é o melhor para o Grêmio é jogar em um campo bom, que no momento, seria o Olímpico.

LNet!: Jogadores como você e Seedorf, por exemplo, estão ajudando a diminuir o preconceito que existe contra jogadores acima dos 34, 35 anos no futebol brasileiro?
Com certeza ajudamos sim a vencer esse preconceito que, no meu ponto de vista, ainda existe. A nossa volta para o Brasil ajudou muito. Ele ainda existe pois, infelizmente, ainda existem muitos jogadores no Brasil que são jogadores e não atletas. Eles entram em campo para jogar, mas que não cuidam na parte física, que é a sua ferramenta de trabalho. Muitos, infelizmente, não têm esse pensamento. E por não terem esse pensamento, chegam aos 29, 30 anos se arrastando em campo. Isso gera um preconceito. Podemos incluir o Marcos Assunção, o Cris e o Dida nessa conta também.

LNet!: Aproveitando essa sua transparência Zé, gostaria de saber se você, como camisa 10 que é, acredita que o camisa 10 pode ser considerado um artigo de luxo no futebol mundial atualmente?
Acho que hoje o camisa 10 praticamente, vou colocar praticamente, não existe hoje. Diria no futebol mundial, pois hoje o futebol mais bonito e o mais valorizado é o futebol espanhol pelo título mundial e europeu que a Espanha tem (é a atual bicampeã da Eurocopa) e a forma de o Barcelona jogar. Se a gente for olhar esses dois times, o Barcelona tem o camisa 10, que é o Messi, mas não tem aquele típico 10. Hoje, no futebol moderno, acho que o típico 10 é o segundo volante. Muitas equipes, principalmente na Europa, jogam com dois jogadores de meio de campo mais abertos. E esse segundo volante seria o camisa 10, que sai mais para o jogo. Acho que o camisa 10 está em extinção.

LNet!: Você ganhou o apelido de "Homem de Ferro" no Grêmio. Como surgiu isso?
(Risos). Isso é coisa do Pará, o mais brincalhão do nosso grupo. Em um jogo contra o Atlético-MG (Brasileirão do ano passado), tomei uma entrada forte, que rasgou o meu meião. Depois nós ficamos sabendo que o jogador que me deu a entrada teve uma lesão. Logo em seguida, tive também uma dividia com outro jogador na Sul-Americana de 2012 e esse jogador saiu do jogo machucado. Por isso, o Pará colocou esse apelido.

LNet!: Como você avaliou esse retorno do Felipão ao comando da Seleção Brasileira?
Acho que a CBF foi muito feliz em chamar o Felipão de volta. E o Felipão não está sozinho. O Parreira, que também fez história na Seleção, voltou. Juntando esses dois treinadores, a Seleção tem tudo para fazer uma grande Copa do Mundo. É claro que o tempo é muito pequeno, mas o primeiro passo era trazer um treinador com experiência e com a bagagem do Felipão junto com o Parreira, pois peças o Brasil o tem de sobra.

LNet!: Você acredita que as críticas do Pelé ao Neymar são justas?
O Pelé foi feliz nos comentários, pois ele falou no sentido de pai para com um filho. Acredito que o Pelé gosta muito do Neymar e hoje, infelizmente, não tem ninguém que dá uma chegada como o Pelé chegou no Neymar. Muitos só passam a mão na cabeça dele. As críticas foram nesse sentido. De um pai que quer o melhor para o filho. Não teve nada de ciúmes.

OS OUTROS CAMISAS 10 DO FUTEBOL BRASILEIRO

Internacional
D'Alessandro (31 anos) - Depois de um ano repleto de lesões - foram quatro -, o argentino começou a atual temporada sem problemas e com boas atuações pelo Colorado.

Botafogo
Seedorf (36 anos) - É quem se aproxima mais do estilo de Zé Roberto. Mesmo com uma idade avançada, não se lesiona e tem atuações consistentes.

Flamengo
Carlos Eduardo (25 anos) - Estreou pelo Flamengo no clássico contra o Botafogo. Ainda precisa de sequência de jogos.

Fluminense
Thiago Neves (27 anos) - Vem oscilando desde que voltou ao Tricolor carioca. Vive início de temporada conturbado por conta de algumas polêmicas. Perdeu pênalti no último domingo.

Vasco
Carlos Alberto (28 anos) - Começou a temporada com boas atuações, mas segue perseguido com constantes lesões.

Corinthians
Douglas (31 anos) - Depois de ser titular absoluto no meio de campo do atual campeão mundial, amarga a reserva no time de Tite.

São Paulo
Jadson (29 anos) - É uma das peças importantes do esquema do técnico Ney Franco. Vive boa fase no clube.

Palmeiras
Valdívia (29 anos) - Convive com muitas contusões e não consegue emplacar uma grande sequência de jogos.

Santos
Montillo (28 anos) - Chegou ao Peixe nesta temporada, após um ano irregular no Cruzeiro. Tem espírito de lutador e objetivo.

Atlético-MG
Ronaldinho (32 anos) - Desde que chegou ao clube mineiro parece ter recuperado a regularidade e o bom futebol. Voltou a ser convocado para a Seleção.

Cruzeiro
Diego Souza (27 anos) - Estreou pelo Cruzeiro na última rodada do Mineiro. Estava há um tempo sem jogar por conta de um imbróglio com o Al-Ittihad (SAU)

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