Há 30 anos, o futebol perdia com a Tragédia do Sarriá

Confira o depoimento dos jogadores que estiveram presentes na derrota da Seleção para a Itália na Copa de 1982

Henrique Coelho, do jornal MAIS - 05/07/2012 - 13:20 Rio de Janeiro (RJ)

Brasil x Itália - Copa do Mundo de 1982 (Foto: Arquivo)

A noite de 5 de julho de 1982 foi longa para os brasileiros. Tão longa que, para muitos, ela ainda não acabou. Tudo parece um grande pesadelo e, quando o dia amanhecer, nas páginas dos jornais estará estampada a vitória da Seleção Brasileira sobre a Itália, pela segunda fase da Copa do Mundo.

Infelizmente, porém, a realidade é dolorosa para os brasileiros. Naquela tarde, há 30 anos, no Estádio Sarriá, em Barcelona, o Brasil de Zico, Sócrates, Júnior e cia. deu adeus ao sonho do tetra, após perder por 3 a 2 para os italianos, comandados pelo contestado atacante Paolo Rossi, autor dos três gols daquele jogo que ficou conhecido como "Tragédia de Sarriá".

Mais do que uma derrota futebolística, aquela partida representou o fim de um sonho. Nunca uma seleção começou uma competição tão favorita, jogando tão bonito. E, quis o destino, que fosse embora prematuramente contra um time que fez uma primeira fase medíoce, onde conseguiu apenas três empates. Depois daquele 5 de julho, o futebol nunca mais foi o mesmo.

Choraram os brasileiros, mas, principalmente, choraram os amantes do futebol bonito, jogado com o sorriso no rosto, com o gingado do samba. O Brasil perdeu? Não. Quem perdeu foi o futebol. Se bem que tudo isso pode ser um pesadelo e amanhã o LANCE! pode estar na banca com uma edição sobre os 30 anos do tetra.

FICHA TÉCNICA
BRASIL 2 X 3 ITÁLIA

Local: Estádio Sarriá, em Barcelona
Data: 5/7/1982
Árbitro: Abraham Klein (ISR)
Público: 40.000 presentes
Cartões amarelos: Gentili e Oriali (ITA)
Gols: Paolo Rossi 5'/1ºT (0-1), Sócrates 12'/1ºT (1-1), Paolo Rossi 25'/1ºT (1-2), Falcão 23'/2ºT (2-2) e Paolo Rossi 29'/2ºT (2-3)

BRASIL: Valdir Peres, Leandro, Oscar, Luizinho e Júnior; Falcão, Toninho Cerezo, Sócrates e Zico; Serginho e Éder - Técnico: Telê Santana.

ITÁLIA: Zoff, Gentile, Scirea, Collovati (Bergomi) e Cabrini; Antognioni, Oriali e Tardelli (Marini); Bruno Conti, Paolo Rossi e Graziani - Técnico: Enzo Bearzot.

Filho de Telê se emociona

Dentre os 44 mil espectadores no Estádio Sarriá naquele 5 de julho de 1982, um se destacava pela carga de tensão. Renê Santana, o filho do Mestre Telê Santana, se lembra muito bem do clima no estádio.

- Eu estava lá no Sarriá, nas cadeiras. Sofri um golpe muito grande. Depois do jogo, fui até o vestiário consolar os jogadores e a comissão técnica - conta Renê, que garante que Telê jamais se arrependeu das opções táticas que efetuou naquele time.

- Aquele foi um time que jogava para frente e caiu de pé - lembra Renê, com saudosismo.

Hoje comentarista na TV, Renê diz que o legado de 82 é positivo:

- Mesmo sem ter vencido, foi uma Seleção que ficou na história. E todos daquela geração se orgulham muito disso.

DEPOIMENTOS DOS CRAQUES

Waldir Peres: "Antes da partida, o clima era de euforia. A gente tinha que ganhar da Itália. Acredito que nesses 30 anos não houve uma equipe superior à seleção de 82. Para se ter uma idéia, todos os jornais internacionais estampavam na capa que a Copa havia acabado quando o Brasil foi eliminado. E a tristeza que sentíamos não tinha tamanho."

Leandro: "Aquele era um grupo muito alegre, e se abateu muito com o terceiro gol da Itália. Achei que faltou uma reação mais forte, faltavam ainda quinze minutos de jogo. O que me pegou de surpresa foi quando eu ouvi dizer que havia gente ali no grupo torcendo contra, por alguma insatisfação."

Luizinho: "Tivemos o resultado duas vezes e não aproveitamos. Taticamente, nós jogamos errado. Não conseguimos pensar com o resultado que nos favorecia. Pode ter faltado alguém, jogador ou treinador, e falar: 'Ei, vamos segurar, o 2 a 2 é nosso!' Faltou essa humildade de jogar pelo resultado."

Oscar: "Tecnicamente, naquele time, eu era o pior. Mas eu tinha boa velocidade e impulsão. No final, o Éder veio bater uma falta na esquerda e eu fui tentar o cabeceio. O Cerezo trombou para eu chegar com chance de fazer o gol, mas o Zoff defendeu a bola em cima da linha..."

Júnior: "Quando você ouve o Pep Guardiola, campeão do Mundo, dizer que baseou a equipe da Espanha pelo que ele ouvia do pai e do avô sobre a Seleção de 82, é um sinal de que a gente conseguiu o nosso objetivo. Trinta anos depois, aquela geração continua sendo falada e respeitada."

Cerezo: "O Flamengo e o Galo eram os melhores times do Brasil e formavam a base daquela seleção, eram times que jogavam para frente. Logicamente não poderia ser diferente com relação àquele time. O Luizinho e o Éder, que jogavam comigo, me deixavam muito à vontade para atuar naquele time."

Falcão: "O 3 a 3 seria o resultado ideal para o jogo. A Itália chegou 4 vezes ao gol e fez quatro gols, um deles foi anulado. A gente teve 3 chances, uma cabeçada do Oscar, outra do Sócrates e um chute meu. Não era justo o Brasil perder, mas a Itália jogou bem, marcou melhor ainda e se aproveitou dos nossos erros."

Zico: "Meus companheiros não me acionaram como deveriam. No segundo tempo, fui quase excluído do jogo porque o pessoal via o Gentile do meu lado e mesmo eu me movimentando não recebia a bola, como normalmente acontecia. No Flamengo todos estavam acostumados a essa situação e me acionavam mesmo, não queriam saber."

Serginho Chulapa: "O Careca se machucou, eu era o segundo e tentei aproveitar a minha chance. A Copa de 78 era a que eu queria jogar, mas infelizmente fui suspenso por um ano em 1977. Contra a Itália, demos chance para o Rossi, ele cresceu para cima da gente e acabou com o jogo. Faz parte."

*Procurado pela redação do MAIS, Éder não atendeu às ligações da equipe do jornal.

Paulo Isidoro: "Olha, eu sei que me magoou muito ser tirado do time titular logo antes da Copa, porque eu estive presente durante toda a preparação. O time sofria muitas críticas porque não tinha ponta, e logo na estreia eu fui sacado para colocar um jogador que não era da posição. Foi uma mágoa dupla para mim. Eu poderia tranquilamente fazer aquela função, já tinha jogado ali no Mundialito, apesar de ser meio-campo de formação. Quando eu entrei no jogo contra a Itália, ele apenas pediu para eu continuar fazendo o que eu vinha fazendo nos outros jogos, nem teve muita conversa do Telê não. Eu estava insatisfeito, mas sempre preferi falar com o treinador antes de começar a procurar qualquer problema."

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