Gobbi: 'Sou corintiano, maloqueiro e sofredor. Graças a Deus!'

Candidato da situação, ex-diretor se diz obsessivo por títulos e espera dar continuidade ao trabalho de Andrés Sanchez

Felipe Bolguese - 15/12/2011 - 06:30 São Paulo (SP)

Mario Gobbi (Foto: Divulgação)

Mário Gobbi Filho foi escolhido por Andrés Sanchez a continuar seu trabalho no triênio 2012-2014. Candidato à presidência do clube pela situação, nas eleições em fevereiro do próximo ano, Gobbi se apega aos títulos para tornar-se um dos maiores da história - como Sanchez já é, acredita. O sonho, claro, é ser o primeiro a conquistar a Libertadores.

Para ele, é covardia comparar a atual gestão, com mudança de estatuto, construção de estádio e CT, contratação de Ronaldo, entre outros feitos, com a que almeja ter nos próximos anos. "Eu lamento não ser Andrés Sanchez", afirma.

A popularidade e o apoio do atual mandatário, no entanto, são usados a favor. No Parque São Jorge, costuma ser abordado por sócios, dar autógrafos e ser chamado de "futuro presidente". Ele garante que o carinho dos torcedores é maior do que os atritos que ocorreram quando era diretor de futebol, cargo que exerceu de 5 de dezembro de 2007 a 7 de dezembro de 2010.

- Corinthians é o Brasil, é a cara do nosso povo. Sofrido e conquista tudo dessa forma. Eu tenho orgulho de dizer que sou corintiano, maloqueiro e sofredor. Graças a Deus! - brada.

Confira abaixo a entrevista exclusiva com Mário Gobbi:

Em que pé está a campanha e quais são os principais objetivos da candidatura?

Existe um grupo, que venceu as eleições no passado e tem um projeto, princípios. Temos de dar sequência. É isso que será feito. A construção do estádio, a construção do CT das categorias de base que já teve início, a sequência do processo de modernização e descentralização, aumento das receitas, buscar ir amortizando as dívidas que o clube tem, investir nos esportes amadores, no social, e manter sempre um time que possa ganhar. Esse é o nosso compromisso maior, o nosso carro-chefe, dando sequência na democratização no Corinthians que começamos há quatro anos e meio.

Quando diretor de futebol, o senhor sofreu muita pressão. Qual o tamanho da responsabilidade de ser presidente do Corinthians?

Primeiro, nós vamos começar um processo eleitoral. Depois nós vamos ver quem vai vencer esse processo. Quem vai definir isso são os sócios, no dia 11 de fevereiro. Primeiro vamos respeitar os outros colegas que também pleiteiam o cargo, respeitar a vontade dos sócios. Todos sabemos da pressão que é presidir o Corinthians, a necessidade de se vencer sempre aqui. Isso faz parte da nossa cultura. Ficou enraízada já dentro de cada um.

No período fora da diretoria, se renovou? Continuou atuando na política?

Em qualquer cargo ou função, você tem um ciclo. O meu ciclo era para ter encerrado um pouco antes, a pedido do presidente permaneci um pouco mais. A proposta é de renovação. E renovar é alternar as pessoas nos cargos, renovar propostas, ideias...Com relação a este ano que passei longe de cargos aqui no clube, foi um ano maravilhoso, com a família, aproveitei tudo o que fiquei longe pude recuperar, me energizar e me preparar para, se eleito for, sofrer a carga que o cargo derruba ou descarrega em cima do presidente.

Qual a principal meta se for eleito? Ficou algum desejo do passado que não foi feito?

Existem muitas coisas que quero fazer. Mas o que as pessoas querem ouvir é sobre títulos. Então quero ganhar títulos. O Corinthians vive de títulos. Lá no futebol eu falava: "Eu sou obsessivo compulsivo por títulos". Mas não depende só de mim, o futebol é um mundo de detalhes, tudo tem de convergir para levar um time a títulos. Quero ganhar todos os títulos que disputar. Jogadores que quis contratar e não consegui, hoje não dá mais porque a idade passou e futebol é uma roda gigante, tem de saber o momento de cada um.

Tevez é sonho do presidente Andrés Sanchez. É sonho do senhor também?

É o sonho do presidente, acho que não devo falar de fatos sem mandato. Estou fora da diretoria, seria uma falta de ética falar de nomes para o futebol, estaria desrespeitando os diretores que lá estão e o presidente. Sobre nomes pergunte a quem está no poder. Se eu vencer, pode perguntar.

Mas o senhor gosta do Tevez...

Como torcedor, eu gosto de todo grande craque.

O senhor renovaria com Tite ou escolheria outro treinador?

Quem vencer as eleições, vai tomar posse dia 12, 13 de fevereiro. Quem assumir o clube, vai pegar um planejamento, plantel e equipe técnica montados, estaremos no meio do Paulista. No futebol se planeja o ano seguinte em setembro, outubro, para estar pronto para dia 4 de janeiro já começar a pré-temporada. Esse é um tema que não passa pela minha pessoa. Não sou eu que vou cuidar disso. Quem vai cuidar disso é quem está no poder, seja a, b ou c o vencedor das eleições.

Espera ser um presidente para a história como Andrés? Pode ganhar a primeira Libertadores...

Dificilmente alguém vai superar a gestão do Andrés. Acho covardia comparar gestão futura com a do Andrés. Só constroi estádio uma única vez. Só constroi CT uma vez. Democratiza o clube, tira o clube do estado de exceção raríssimas vezes. Começa a construir o CT das categorias de base uma vez. Você só tem um Ronaldo, é um fenômeno que demora e não se sabe quando virá outro. Foi uma gestão que revolucionou o futebol brasileiro. Qualquer um vai querer ganhar a Libertadores, porque é um título que o Corinthians ainda não tem. A primeira vez é a que fica para a história. Como ficou 77, depois de 23 anos sem títulos. Se eleito for, acho que os outros idem, vão buscar títulos. O Corinthians vive de títulos. É o único clube que lidera campeonato e passa por tumultos. É inexplicável, inconcebível, não há razão de ser, mas é um fenômeno que acontece, que você não controla e não segura.

Qual o poder do apoio do Andrés nas eleições? Acha que repetirá o que ocorreu com Dilma, escolhida por Lula a sucedê-lo?

Acho que é fundamental o apoio dele. Andrés tornou-se um presidente que ficou para a história do Corinthians, a torcida adora ele, sócios. Se você der uma volta com Andrés no clube não consegue caminhar três passos, é amado por todos. Merecido, fruto da luta de anos aqui dentro. O Andrés é único. Difícil ter outro. Não dá para ser parâmetro de comparação com qualquer pessoa que assuma. Cada ser tem suas características, personalidade, jeito de ser, que não se confunde com outro. Deus nos fez com fórmula única. Eu lamento, porque queria ser Andrés Sanchez, queria ter a capacidade dele, sabedoria, popularidade, carisma, estrela... Eu quero ao final, se for eleito, poder ter feito não as mesmas coisas boas, mas coisas boas tanto quanto ele fez. Esse é um sonho que vou buscar para o bem do Corinthians.

Andrés vai continuar ativo na próxima gestão, terá algum cargo, continuará à frente da construção do estádio?

Com relação a ele colaborar, quem quer que seja o vencedor, necessita de um apoio dele. Necessita que ele passe os caminhos, os meandros. Ele acumulou em quatro anos e meio uma sabedoria, uma experiência que ele passará a quem chegar. Ele é corintiano acima de qualquer coisa. Para o bem do Corinthians, ele tem de subsidiar, estar junto, apoiar, dar conselhos, propor. Hoje ele tem um cabedal que ninguém tem no mundo do futebol.

A situação está unida pela sua candidatura? Outros nomes da chapa da situação queriam ter se candidadato...

Nós formamos um grupo no clube, que se chama "Renovação e Transparência". Há um período que se chama escolha do candidato. É momento de colocar o seu pensamento, uns preferem a, outros b, f é melhor. Tivemos essa fase, até porque somos democratas. Acabou-se o tempo no Corinthians que três caciques sentavam e falavam que o candidato era fulano de tal e todos tinham de engolir. Passamos por esse processo natural. Superada essa fase, o grupo se uniu e se fechou no nome escolhido. Quem comandou o processo foi o nosso líder Andrés Sanchez. Agora todos remam a favor do candidato do grupo.

O que achou da mudança no formato das eleições para o conselho?

A questão foi a redação dúbia de um artigo do estatuto. Poderia causar um tumulto na eleição. Cada sócio poderia votar em 200 nomes para o Conselho. Imagine um sócio entra na cabine, escreve 200 nomes. O que se quis fazer é sanar essa forma. Tinham três propostas no Conselho e passou a proposta do "Chapão". Cada legenda monta uma chapa com 200 nomes e o eleitor escolhe qual legenda quer e vota nela. Essa que venceu no Conselho. Não foi a que eu quis, Andrés quis. Algumas pessoas não enxergam que aqui não tem voto de cabresto. Cada um vota como quer, teve gente dos dois lados que votaram de forma diferente. O resultado foi esse aí. Acabou o coronelato no Corinthians! Aqui se respira democracia.

Quando diretor, o senhor recebeu muitas críticas por falar que futebol era "business", após a venda de André Santos, Cristian e Douglas, em 2009.

Disse que nós temos de passar ao torcedor a cultura do futebol. Eu não estou falando da cultura de português, matemática, historia, geografia. Para que o torcedor não se sinta ofendido quando um jogador é vendido. André Santos, Douglas e Cristian tinham proposta naquela época de um milhão e meio de euros de luvas, salários de 350 mil reais mais X por jogo. Ainda que o Corinthians fizesse uma loucura insana de cobrir a proposta dos três, teria que chamar os outros e equiparar os salarios de todos, porque senao ia ficar uma situação no grupo insustentavel. Não é que o Corinthians fez um desmanche, como disseram. Desmanche passa para um torcedor que há uma vontade da diretoria vender. Não, a diretoria está vendendo porque não tem como segurar um jogador com uma proposta daquelas. Essa cultura tem de se deixar claro para o torcedor. Eu disse que futebol era business. Teve gente que usou isso de maneira desleal. Fazem futebol por interesses econômicos, e não por outros. Tem de montar plantel, tudo em cima dos números. Acho que o importante é tratar o Corinthians com respeito. Você praticar os seus atos somente no interesse do Corinthians. É você cuidar das coisas do Corinthians. Isso fiz durante três anos, durmo em paz com a consciência tranquila. Quem esteve no departamento de futebol sabe o trabalho que fiz lá. Nada como ter a consciência limpa. Eu amo a torcida do Corinthians. Ela é o maior patrimônio do clube, desde o dia em que tomei posse. Gostam de conturbar, vender jornal, mas não dá para impedir a chegada da primavera. Sinto o carinho das pessoas por onde passo, lembram, me abraçam, isso para mim é o que recebo de gratidão. Mais nada.

Qual a mensagem do senhor para os sócios e torcedores?

Vamos com tudo, vamos de mãos dadas, firmes, empurrar o Corinthians, no canto, no grito, com a força da mente, com a força dos olhos. Quando estou no campo empurro com a força dos olhos. Corinthians é o Brasil, é a cara do nosso povo. Sofrido e conquista tudo dessa forma. Eu tenho orgulho de dizer que sou corintiano, maloqueiro e sofredor. Graças a Deus!

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